Ttulo: O Pecado da Duquesa.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Nova Cultural, So Paulo, 1989.
Ttulo Original: The Wrong Duchess.
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores cunha.
Correco: Edith Suli.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente 
leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de
direitos de autor, este ficheiro no pode ser distribudo para outros
fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente.

Barbara CARTlAND
A mais famosa e perfeita autora de romances histricos, com 350 milhes
de livros vendidos em todo o mundo

Ainda havia estrelas no cu, mas um leve claro ao longe j prenunciava o
novo dia. De seu esconderijo entre os arbustos, a duquesa Areta viu se
aproximarem os cavalheiros que iriam participar do duelo. Faltavam poucos
minutos. A deciso fora tomada por seu marido, o jovem duque de
Kerncliffe.
Ele corria um grande perigo mas no tinha alternativa. Um pecado de amor
os separava. E para resgat-lo no hesitou em oferecer a prpria vida!

NOVA CULTUral.
Barbara Cartland

O esplendor de Paris aquecia o corao solitrio de Areta.
Barbara cartland
Ttulo original: The Wrong Duchess
Copyright: (c) Barbara Cartland 1988
Traduo: E. N. Costa e Silva
Copyright para a lngua portuguesa- 1989
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA
Av. Brigadeiro Faria Lima, 2000 - 3 andar
CEP 01452 - So Paulo - SP - Brasil
Caixa Postal 2372
Esta obra foi composta na Editora Nova Cultural Ltda.
Impressa nas Artes Grficas Parmetro Uda.

NOTA DA AUTORA
Na Frana as corridas de cavalo tornaram-se moda a exemplo da Inglaterra.
O autor de Paris Illustre, escreveu em 1858:
"Ao tomarmos a Inglaterra como modelo enquanto organizamos nossas
corridas, tambm emprestamos desse pas no apenas as regras desse
esporte, mas tambm grande parte das pompas de que uma corrida se
reveste. Tambm adotamos trajes oficiais para os jqueis".
Em 1864 Manet pintou magnificamente as corridas em Longchamp, porm a era
dos triunfos das corridas francesas j havia comeado havia uma dcada.
O hipdromo de Longchamp foi inaugurado em 1857. Deveuse ao duque de
Morny, o verstil estadista, desportista e dramaturgo amador, a ideia da
instituio do Grand Prix.
A cidade de Paris passou a oferecer cem mil francos pela importante
corrida e em 1863 um cavalo ingls foi o vencedor desse grande prmio.
La Paiva, a mais rica e mais sensacional cortes do imprio francs foi
tambm considerada a mulher mais sensual e mais libertina do sculo.
Sua luxuosa e carssima casa na Avenue ds Champs-Elyses  atualmente o
Travellers' Club. Tive o privilgio, sendo mulher, de conhecer toda a
bela casa, certa manh, antes da chegada de qualquer um dos seus scios.
Nos banheiros j no havia mais as pedras preciosas que um dia adornaram
as torneiras. Havia, porm, na casa, a atmosfera de magia e mistrio que
La Paiva exercera sobre todos os homens de Paris. Em maro de 1871,
quando os prussianos entraram em Paris, La Paiva permaneceu de p nos
degraus de sua casa durante o tempo que Henckel von Donnersmarck, seu
amante, de uniforme, assistia  marcha dos seus compatriotas.

CAPTULO I
1868

A rainha revirou novamente na cama e deu um pequeno gemido. Desde que se
deitara aquela dor de dente a fazia sofrer horrivelmente.
Embora fosse contra tomar ludano ou qualquer outro sedativo que aliviava
a dor, mas entorpecia o crebro, decidiu levantarse e ir tomar uma colher
do medicamento. Era-lhe impossvel passar a noite em claro, tendo um
trabalho exaustivo no dia seguinte.
Acendeu a vela e saiu da cama para ir at o lavatrio onde o pequeno
frasco sempre ficava guardado. Veio-lhe  mente a figura do marido. Como
sempre, viu-se saudosa, desejando que o prncipe consorte estivesse vivo
para falar-lhe de seu sofrimento e esperar o conforto que s ele sabia
lhe proporcionar.
com os olhos marejados de lgrimas, lembrou-se de que nunca mais o veria
e que a vida devia continuar mesmo sem t-lo ao seu lado.
Ao alcanar o mvel a rainha procurou o frasco de ludano e no o
encontrou. Lembrou-se imediatamente de que dera ordens a sua aia, semanas
atrs, para tirar todos os vidros e frascos desnecessrios que
inevitavelmente se iam acumulando sobre o lavatrio e o toucador.
Agora via-se sem o medicamento e a dor se tornava cada vez mais
insuportvel. Ali parada, indecisa, considerou por um momento o que iria
fazer.
Afinal resolveu ir ao quarto de lady Neathton, uma de suas damas de
companhia, cujo quarto era mais prximo do seu.
Sendo viva como Sua Majestade, lady Neathton fora indicada para a
honrosa posio que no momento ocupava, no final do ano anterior.
A rainha sentia pena da lady em questo porque seu marido,
lorde Neathton, sucumbira a uma estranha febre tropical que havia
contrado quando, a servio do governo de seu pas, acompanhara a
delegao inglesa que ia participar de uma conferncia no norte da
frica.
Esse tipo de febre, comum naquele continente, tornava o mais forte homem
branco numa criatura debilitada e sem defesas. Na ocasio do falecimento
de lorde Neathton a rainha escrevera  viva uma carta de condolncias,
efusiva e sincera. compartilhava realmente da dor de lady Neathton
sabendo avaliar o quanto havia sido dura aquela perda, uma vez que ela
prpria perdera seu querido Albert.
Informada de que a viva se encontrava em situao um tanto difcil,
decidira que o mnimo que poderia fazer por ela seria oferecer-lhe a
posio de dama de companhia da rainha, a qual lady Neathton aceitara
profundamente grata.
Para a rainha aquela fora uma escolha bem conveniente, uma vez que ambas
encontravam lenitivo para a dor que sentiam, nas longas conversas que
mantinham sobre a inestimvel perda que haviam sofrido. E desde que lady
Neathton viera para o castelo de Windsor, era comum as vivas mesclarem
suas lgrimas. "S mesmo numa emergncia eu recorreria ao ludano", a
rainha disse a si mesma, enquanto se decidia a tocar ou no a sineta
chamando a dama de companhia. "Mas no estou suportando esta dor. Ser
mais rpido se eu for ao quarto de lady Neathton; ela  uma pessoa
sensata e vai me compreender." O castelo de Windsor era to grande e to
ermo, chegando mesmo a ser incmodo para os que ali viviam. Se chamasse a
dama de companhia iria ter de esperar que ela se vestisse e no aguentava
ficar sem um remdio que lhe aliviasse a dor.
Vestindo um chambre de l debruado com rendas, que a aia deixara sobre a
cadeira, ao p da cama, calando os chinelos baixos que complementavam o
chambre, foi at o quarto mais prximo, levando na mo uma vela num
castial de prata.
Todos os corredores do castelo eram mantidos parcamente iluminados. Essa
era uma das regras estabelecidas pelo prncipe consorte ao constatar,
horrorizado, o quanto se esbanjava no castelo de Windsor e no palcio de
Buckingham, em iluminao. Um criado tinha a funo de recolher todas as
manhs as velas que no se haviam consumido e o prncipe viu, encantado,
ao cabo de pouco tempo uma considervel economia nas suas contas.
No era fcil andar pelos muitos corredores sem se perder, mas a rainha
conhecia perfeitamente o imenso castelo. Depois de virar  direita, em
seguida  esquerda, caminhando pelos corredores silenciosos e  meia-luz,
alcanou o quarto ocupado por lady Neathton.
Certa de encontr-la dormindo, Sua Majestade achou que seria melhor nem
bater; entraria e a acordaria delicadamente para no assust-la.
Segurando a vela na mo esquerda, girou a maaneta. Aberta a porta, ficou
paralisada ao defrontar-se com o belo e alto duque de Kerncliffe que, 
luz da vela e usando robe escuro, pareceu-lhe quase assombroso.
Se a rainha ficou espantada, muito mais o duque. Por um momento ambos se
olharam na mais completa perplexidade. At que Sua Majestade conseguiu
exclamar com horror:
- Alteza!
O duque com sua caracterstica presena de esprito e habilidade pousou
um dedo sobre os lbios da rainha e antes que ela pudesse dizer alguma
coisa, saiu do quarto e fechou a porta atrs de si, explicando em
seguida, num sussurro:
- Entrei aqui por engano; a pessoa que est naquela cama dorme
profundamente. Ser melhor no a acordarmos.
- Alteza! Mal posso...
Antes que ela conclusse seu pensamento, o duque inclinou respeitosamente
a cabea e virou-se, afastando-se depressa, indo na direo oposta  que
a rainha viera.
No apenas surpresa, mas tambm escandalizada e horrorizada, a rainha no
entrou no aposento, do que mais tarde se arrependeu.
De volta a seu quarto, tocou a sineta com violncia e aguardou a vinda da
aia.
Ao ver o duque de Kerncliffe entrando na sala o camareiromor ergueu-se e
estendeu-lhe a mo. - bom dia, Alteza!
- bom dia!
- Por favor, sente-se - o camareiro indicou uma cadeira confortvel e no
a que se achava ao lado da escrivaninha.
Mostrando-se muito  vontade o duque sentou-se confortavelmente e cruzou
as pernas. Na verdade era o camareiro-mor quem revelava sua inquietao.
Mexendo nervosamente na corrente do seu relgio demonstrava o quanto se
sentia embaraado pelo que tinha a dizer.
Antes de falar, reconheceu ao olhar o duque que no era de estranhar que
um homem to belo e imponente como Sua Alteza fosse admirado por todas as
mulheres da corte.
Embora ele procurasse manter a maior discrio quanto  sua vida
particular, era inevitvel que surgissem quase diariamente comentrios
sobre sua pessoa. E no eram s as mulheres que faziam isso.
Possuindo uma das mais considerveis fortunas do pas, era admirado e
invejado pelos homens. Suas cocheiras eram incomparveis; participar de
caadas com sua matilha formada de ces espetaculares era um privilgio
imensamente cobiado e o mesmo se dizia quanto a ser convidado para
hospedar-se em Kerne Park.
Sua casa ancestral, em Kent, era to magnificente que s podia ser
comparada ao Blenheim Palace.
Naquele momento o camareiro-mor estava pensando que o duque de Kerncliffe
era de fato o primeiro na classe ducal.
A demora do camareiro-mor em explicar por que pedira ao duque que viesse
v-lo, fez este ltimo perguntar com um irnico e discreto sorriso no
canto da boca:
- Bem? vou ficar de castigo num canto ou serei mandado para alguma ilha
tropical onde s beberei gua de coco?
Um pouco mais  vontade, o camareiro-mor riu.
- No vai ser to mau assim, mas no errou por muito.
- O que est querendo dizer  que Sua Majestade no acreditou quando lhe
disse que eu havia entrado no aposento errado.
- Foi uma explicao plausvel, no entando, considerando-se que h
inmeros outros quartos entre o seu e aquele no qual Vossa Alteza se
encontrava, nossa rainha no se convenceu.
- S mesmo uma pessoa como voc para conhecer o castelo
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to bem. Afinal este lugar  parecido com tocas de coelhos. No sou eu
o primeiro a dizer disso.
A afirmao era verdadeira. Havia inmeras histrias entre o pessoal da
corte sobre visitantes que se haviam perdido no labirinto que era o
castelo de Windsor. Uma delas era a histria de um cavalheiro que no
soubera voltar para seu quarto e passara a noite num sof da galeria, na
ala principal.
Pela manh, uma das arrumadeiras o encontrou e, supondo tratar-se de um
bbado, foi buscar um policial para cuidar do aristocrata.
Esta histria e diversas outras passaram num lampejo pela mente do
camareiro-mor antes de ele explicar:
- O problema, Alteza,  que se trata de lady Neathton, por quem Sua
Majestade tem grande estima, alem de ser mulher de grande beleza. Se
fosse qualquer uma das outras damas de companhia da rainha, a reao dela
seria diferente.
- E a minha tambm seria! - o duque replicou num lampejo de humor que fez
o camareiro-mor rir novamente.
- Compreenda que me causa embarao o que lhe tenho a dizer, Alteza, mas
Sua Majestade faz questo do decoro de suas damas de companhia.
- Entendo. Portanto, pode me dizer o pior. O camareiro-mor respirou
fundo.
- Sua Majestade acha que j  tempo de Vossa Alteza arranjar uma esposa!
O duque ficou imediatamente muito ereto em sua cadeira.
- Est dizendo que Sua Majestade ordena que eu me case?
- Posso responder a sua pergunta com apenas uma palavra: "Sim"!
- No  para acreditar! - desabafou o duque. Ento seu tom de voz mudou.
-  inconcebvel que qualquer monarca em nosso sculo de progresso, de
racionalismo e de liberdade de pensamento, possa forar um homem a se
casar.
Naturalmente a rainha Victoria no o obriga a fazer o que no queira,
Alteza - o camareiro ponderou calmamente. - Mas, continuando solteiro,
no ser aceito na corte daqui por diante.
- Sou o estribeiro-mor!
- No continuar com essa posio.
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Apesar de calado, a expresso do duque - j conhecida no s dos que o
serviam, mas tambm dos amigos - prenunciava sua ira.
- Quando Sua Majestade o incumbiu desta misso voc lhe sugeriu que tal
ultimato estaria alm de sua prerrogativa real e no poderia ser dado a
pessoa alguma?
O camareiro-mor fez um gesto com as mos, muito significativo.
- Sabe to bem como eu, Cosmo, que ningum discute um assunto como esse
com a rainha Victoria. Apenas recebi ordens de Sua Majestade para
transmitir-lhe seu desejo, depois conversamos sobre outras coisas.
O duque ergueu-se e caminhou at a lareira.
- Homem algum, nas mesmas circunstncias, agiria como a rainha est
agindo.
- Mas no temos um rei. Alm disso, duvido que, se ainda vivesse, o
prncipe consorte se sensibilizaria pela sua situao, Cosmo.
- Tem razo - o duque aquiesceu. - Ele sempre foi um puritano pedante.
Graas a Deus o prncipe de Gales  muito diferente dos pais!
- Sua Majestade no anda nada contente com o chamado "crculo de
Marlborough House". Ainda na semana passada a rainha Victoria reprovou o
comportamento dos amigos de Sua Alteza por seus excessos quanto aos
"jogos, s corridas e ao fumo". Tambm censurou a amizade do filho com
"americanos e judeus".
Ocorreu ao duque de Kerncliffe que s o prncipe de Gales poderia
compreend-lo. O prncipe, porm, certamente no se encontrava em
condies de interceder por ningum junto  me.
- Quanto tempo a rainha me concedeu para eu poder considerar sua ordem? -
o duque indagou, por fim.
No passou despercebida ao camareiro-mor a nfase dada ao termo
"considerar" e, com um gesto por si s eloquente, respondeu com vagar:
- Eu diria que se o estribeiro-mor se ausentasse por mais de um ms,
principalmente nesta poca do ano, acarretaria uma srie de
inconvenincias e Sua Majestade poderia indicar uma
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outra pessoa para a posio.
O duque comprimiu os lbios para evitar proferir o que lhe viera 
cabea. Depois de refletir, redarguiu:
- Bem, nada mais tenho a dizer. Suponho que ser melhor voc comunicar a
Sua Majestade que cumpriu as ordens recebidas.
- Tenho certeza de que ela estar esperando ansiosa para ouvir-me dizer-
lhe que voc aceitou sua sugesto.
- Informe tambm a Sua Majestade que considero o castigo severo demais
para uma falta to pequena!
Deixando o camareiro-mor, o duque caminhou vagarosamente pelos corredores
cheios de curvas que conduziam  entrada do castelo. J ciente de que ser
chamado ao gabinete do camareiromor significa problemas, havia deixado o
faetonte a sua espera.
A bela carruagem amarela contrastava com os quatro cavalos bem
emparelhados, negros como azeviche, e com o preto das rodas e do
estofamento do veculo.
Assim que subiu no faetonte, Cosmo recebeu as rdeas do cavalario que
subiu rapidamente para seu banquinho traseiro, no sem antes notar pela
expresso do amo que algo no estava bem.
Enquanto a carruagem ganhava velocidade o cavalario, sentado na posio
correta, de braos cruzados, ia pensando que ao chegar em Londres tinha o
dever de prevenir toda a criadagem de que havia perigo no ar.
O duque voltava para casa furioso pelo que ouvira e pelo modo como fora
tratado. Sem dvida, havia sido um grande azar que, entre tantas outras
pessoas naquele castelo, fosse exatamente a rainha Victoria a vir aos
aposentos de Lucy Neathton no meio da noite.
Ele mal havia destrancado a porta e em dois minutos teria desaparecido
sem ser visto. J conhecia muito bem, naquele labirinto apropriadamente
conhecido como "tecas de coelhos", o caminho de volta para seu prprio
quarto.
Ainda lhe parecia incrvel ter dado de cara justamente com a rainha
Victoria, quando j deixava o quarto de Lucy. S esperava que esta nada
sofresse.
Certamente Lucy o ouvira conversando com algum no corredor,
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embora ele tivesse apenas sussurrado umas poucas palavras. Era
mais provvel que a rainha no tivesse entrado no quarto e Lucy Neathton
no teria ideia do desastre.
Dessa forma, antes que algum acordasse naquele castelo, o duque havia
mandado por seu valete, um bilhete muito discreto a lady Neathton,
informando-a do que acontecera e recomendando-lhe que asseverasse 
rainha que dormira tranquilamente desde que se recolhera at ser acordada
pela manh; por isso no tivera conhecimento de que algo extraordinrio
tivesse acontecido em seus aposentos.
Lucy Neathton se havia mostrado bastante receptiva aos avanos do duque e
depois muito apaixonada e deliciosa. Mas apenas uma noite de amor no
servia de compensao. E agora, a menos que conseguisse descobrir um modo
miraculoso de escapar, teria de encontrar uma esposa.
Alis, essa ideia no era nova. Desde que herdara o ducado sua famlia
vinha insistindo, at o importunando, para que casasse e tivesse um
herdeiro, assunto que, at o momento, no se dispusera a considerar.
Nos ltimos dois anos, uma vez que o duque j completara o trigsimo
aniversrio, a insistncia dos parentes recrudescera. Afinal, ele era
filho nico e, no tendo um herdeiro, o ducado, bem como a imensa fortuna
seria reinvindicada por um primo que, alm de ter mais de cinquenta anos,
no era simptico a nenhum dos familiares.
A todos os rogos, a resposta do duque era, invariavelmente, a mesma
paciente afirmao:
- H muito tempo para eu pensar num herdeiro.
Fazia-o estremecer de horror a ideia de ver-se algemado a alguma jovem
entediante cujo nico atrativo seria ter sangue azul como o dele.
Desde criana Cosmo ouvia a famlia repetir sem se cansar que quando ele
tivesse de escolher sua esposa, esta devia, sobretudo, ser do mesmo nvel
social que o dele. Ainda mais, era preciso fazer uma escolha que viesse
enriquecer a rvore genealgica da famlia Cliffe.
Cansaram-no tanto essas recomendaes que ainda mais forte se tornou sua
determinao de jamais se casar, a no ser quando
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onsiderasse ter cheSado o ltimo momento". Isto queria dizer pouco antes
de se sentir velho demais para ter o to almejado herdeiro.
Herdeiro? pensarei em t-lo quando me encontrar a
beira da senilidade! - Cosmo havia desabafado a um amigo
ntimo, recentemente e esse amigo, Reginald Dalby, achara graa e, em
resposta, argumentara:
Nesse caso a questo est longe demais at para ser considerada. Ao mesmo
tempo, lembre-se de que voc poder sofrer uma queda do cavalo e quebrar
o pescoo ou levar um tiro, seja por acidente ou de um marido furioso que
no possa nem ouvir o nome do duque de Kerncliffe.
- No diga tolices! - Fora a resposta do duque, afastando uma vez mais a
ideia de casamento.
Agora, quando menos esperava, recebia da rainha Victoria a ordem de
encontrar uma esposa. Tal pensamento f-lo segurar as rdeas com firmeza.
No ignorava que, a menos que desejasse cair no ostracismo, e ningum
melhor do que a rainha para fazer isso, teria de obedecer a Sua
Majestade.
"Sabe Deus onde poderei encontrar uma esposa", disse a si mesmo num
murmrio.
Duas horas mais tarde repetiu estas mesmas palavras no White's Club
sentado com Reginald Dalby. Este era seu mais velho amigo, haviam sido
colegas em Eton e na universidade de Oxford, alm de terem servido
durante cinco anos na Brigada da Guarda Real.
Reggie tinha a mesma idade do duque e, como ele, era bem-apessoado e
excelente cavaleiro. A diferena entre ambos residia no dinheiro e nas
propriedades. Enquanto Cosmo tinha tudo, Reggie era filho de um
aristocrata empobrecido que mal conseguia manter a casa ancestral,
necessitada de reparos constantes.
Como o amigo, Reggie evitava a companhia das mocinhas da sociedade, no
querendo se comprometer, uma vez que no podia se casar por no ter meios
de manter uma esposa. Por esse motivo passava o tempo com mulheres
encantadoras e experientes, vivas ou casadas, cujos maridos tinham
"outros interesses"
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 fora do lar.
Tais maridos, em geral, "fechavam os olhos" para o que suas esposas
faziam, desde que estas usassem de discrio.
Reggie ouviu atentamente o desabafo do amigo e ao fim da narrativa
comentou, penalizado e solidrio:
- Que tremenda m sorte! Cus, voc jamais iria imaginar que a rainha
pudesse estar perambulando pelo castelo tarde da noite!
- Parece realmente inacreditvel, mas aconteceu e me pergunto o que vou
fazer.
- O mais importante  que todo este desagradvel incidente seja mantido
em segredo. Voc acha que lady Neathton far algum comentrio?
- Se ela pretende continuar como dama de companhia da rainha, ficar
calada. Para Lucy eximir-se de qualquer culpa ter de seguir meu conselho
e fazer Sua Majestade acreditar que  inocente e nada tem a ver com a
minha perfdia.
- Foi sorte sua a rainha no lhe ter perguntado quem era a pessoa que
voc procurava quela hora - Reggie observou.
- S depois  que pensei nisso e creio que teria respondido que desejava
ver o arcebispo de Canterbury ou algum como ele.
- Ora, Cosmo, nem mesmo a rainha teria acreditado nisso! Fez-se uma pausa
depois da qual Reggie perguntou em tom
especulativo:
- Voc no est pensando em se casar com Lucy Neathton, est?
- Por Deus, no! Lucy  encantadora e muito atraente, mas se eu tivesse
de ficar com ela por mais de uma semana, acharia enfadonha!
- Receava ouvir essa resposta. A nica coisa boa que resultou em toda
essa confuso foi que Lucy no poder for-lo a despos-la por ter-lhe
arruinado a "reputao".
- Basta Lucy manter a boca fechada - o duque asseverou com firmeza. -
Creio que a rainha no dir uma palavra, visto ter certa predileo por
lady Neathton.
- Muito bem, ento. Quem vai escolher como esposa?
-  o que eu lhe pergunto! Sabe que no conheo as jovens de nossa
sociedade. Para falar a verdade, nem me lembro quando
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foi a ltima vez que falei com uma delas.
Talvez, com a sua idade, voc ficasse mais feliz com uma mulher que j
tivesse sido casada - o amigo sugeriu. - Poderia ser algum como Belinda,
por quem esteve apaixonado durante muito tempo.
- Belinda foi, sem dvida, uma das mulheres mais divertidas e agradveis
que j conheci, porm, ela jamais se contentaria em pertencer a um s
homem - o duque objetou, comprimindo os lbios. - Sei que at sou
considerado promscuo, mas no pretendo ter uma esposa que leve outro
homem para a cama to mal eu deixe meu lugar vago!
O modo enrgico de o amigo falar mostrou a Reggie que ele j havia
pensado naquela hiptese. Sendo to ntimo de Cosmo e seu grande
admirador, no ignorava seus princpios, muitos deles desconhecidos de
grande nmero de homens.
Um desses princpios era o de no fazer amor com uma mulher casada na
casa do marido desta. De certa maneira o duque tinha, em relao a outros
homens, um sentimento de solidariedade, ainda que eles no zelassem por
suas esposas como deviam.
Sem o amigo lhe precisar dizer, Reggue sabia que Cosmo no toleraria uma
esposa infiel ou que o fizesse representar papel de tolo.
- Bem, s lhe resta saber quais so as moas disponveis e, seguindo os
conselhos de seu falecido pai, escolher aquela que considerar a mais
digna de sua rvore genealgica - foi a sugesto de Reginald Dalby.
Embora estivesse ouvindo o amigo, o duque no respondeu. Vendo que ambos
haviam terminado seus drinques, pediu ao garom que lhes trouxesse outros
dois.
Reggie retomou a conversa.
Vrios duques passaram pela minha mente na tentativa de me lembrar qual
deles tem uma filha solteira.
- E o que descobriu?
- As filhas de Devonshire esto todas casadas; as filhas de Marlborough
ainda so novinhas; a de Bedford acaba de ficar noiva. Norfolk tem uma
filha, mas no vai lhe interessar por questo religiosa, uma vez que 
catlica romana.
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- No, claro que no.
- Ainda temos Ilminster, e imagino que voc sempre detestou...
- Que homem horrvel! - Cosmo o interrompeu. - Recusome a receb-lo em
minha casa e no me interessaria por sua filha nem que fosse a nica
mulher sobre a face da terra!
- Ento s mais um me ocorre: o duque de Shiltonhurst. J vi a filha dele
e lhe asseguro que  muito bonita!
-  bom que seja mesmo! Se eu tiver de ouvir a conversa maante de uma
jovem que acaba de deixar os bancos escolares, pelo menos terei o prazer
de olhar para ela.
- H apenas duas semanas vi lady Millicent num baile oferecido a uma de
minhas sobrinhas. Achei que ela se sobressaa entre as frangotas
desajeitadas que s sabiam dar risadinhas atrs de seus programas.
O duque deu um gemido.
- Ser que vale apena? Sempre h a alternativa de eu ir para o exterior e
deixar um outro nobre como estribeiro-mor.
- Sabe quem ocuparia sua posio?
- No.
- Ludlow!
- No acredito! - o duque mostrou-se surpreso e acrescentou depois de
certa hesitao: - J tenho notado os olhares de inveja dele e sendo sua
me amiga da rainha,  possvel que Ludlow me substitua.
-  certeza! - Reggie asseverou calmamente.
- Que inferno! Seria prefervel casar-me com a filha do demnio a ver
Ludlow rindo de satisfao pela minha derrota. H dois anos que ele vem
tentando fazer o mesmo comigo nas corridas!
- Ludlow certamente ficaria exultante se voc fosse demitido
ignominiosamente e ele ocupasse a posio de estribeiro-mor!
- Escreverei a Shiltonhurst hoje mesmo - o duque decidiu.
- Afinal sua filha ser, pelo menos, bem-nascida, ainda que possa ser
maante.
A duquesa de Shiltonhurst, sua filha Millicent e a sobrinha Areta j
terminavam o breakfast quando o duque, um homem
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bonito, de cinquenta nos, entrou na sala acompanhado do filho ambos ainda
usando o traje de montaria de corte perfeito e as lustrosas botas.
A duquesa tambm era ainda dona de grande beleza, e no era de
surpreender que Millicent fosse uma beldade reconhecida por todos e que
contasse com grande nmero de admiradores em Londres. Estes esperavam
ansiosos sua volta  Shilton House, na Park Street, to logo terminasse a
semana da Pscoa.
A famlia viera para o campo no apenas porque o duque assim o desejasse,
mas tambm porque o filho do casal, o marqus Roland, viera passar uns
dias em casa, tendo tido licena do regimento e no quisera perder tempo
em Londres, preferindo "respirar o ar puro", como costumava dizer.
- bom dia, Roland.  evidente que fizeram um passeio a cavalo muito
agrdvel, no? - a duquesa disse ao filho que se inclinou para beij-la.
- Foi magnfico! Estou encantado com os dois cavalos novos que papai
comprou.
- Eu nem podia fazer tal extravagncia, considerando o que Millicent tem
me custado - o duque queixou-se, porm, sorria para a filha.
- Sinto muito causar-lhe tanta despesa, papai - Millicent desculpou-se,
colocando  frente do pai seu prato preferido que acabara de trazer do
aparador.
- Ora, voc merece cada pni gasto, querida! - o pai falou com
sinceridade. - Sua me esteve me contando que recebeu muitos elogios e
parabns das amigas depois do baile oferecido pelos Durham.
- Gostaria que voc tambm tivesse ido conosco, papai.
- Espero estar em forma para aguentar os muitos outros bailes que viro!
Mostrando excelente bom humor o duque comeou a comer com apetite,
ignorando completamente Areta, a sobrinha sentada do lado oposto ao dele.
Como se tivesse conscincia de que sua presena irritava o tio, Areta
olhou com ansiedade para a duquesa, na tentativa de pedirlhe licena para
sair, o que no conseguiu porque naquele instante um criado entrou na
sala com vrias cartas numa salva
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e comunicou:
- A mala postal acaba de chegar, Alteza.
- Deixe tudo sobre a mesa - o duque ordenou. - Espero que no sejam
contas!
O criado obedeceu e retirou-se enquanto o duque comia mais um pouco do
que tinha no prato. Depois, olhando para o alto da pilha de cartas, virou
um dos envelopes e notou o braso a um canto do mesmo.
- Uma carta de Kerncliffe. Por que me escreveria?
- Deve ser a respeito de cavalos - aventou a duquesa.
- Assisti s corridas em Doncaster no ms passado. Os cavalos de
Kerncliffe ganharam quase todas elas. No consigo entender como ele
sempre apresenta os mais soberbos animais Roland comentou.
- Ele tem meios para comprar os mais espetaculares purossangues que
possam existir, caro rapaz! - o pai replicou.  uma resposta bem simples,
no? Pudesse eu fazer o mesmo!
- Leia logo o que o duque lhe escreveu - a duquesa sugeriu. - Talvez ele
esteja interessado em comprar uma de suas guas de raa.
- Isto  to improvvel quanto a rainha me pedir uma delas! - o marido
retorquiu.
Pegando uma faca, abriu o envelope, desdobrou a folha de papel, leu a
carta com uma expresso de perplexidade e em seguida guardou-a dentro do
envelope.
- O que diz a carta? - a esposa quis saber, curiosa.
- Assim que terminar meu breakfast lhe direi - o marido assegurou-lhe. J
lhe adianto que se trata de algo auspicioso, muito auspicioso!
O duque dirigiu um olhar para a filha. No sendo um homem perceptivo
passou-lhe despercebida a palidez sbita de Millicent assim que captou a
expresso exultante do pai.
- vou cavalgar, mame - Millicent anunciou. - Ontem Groves me disse que
Andorinha precisa de exerccio.
- No se atrase para o almoo, querida - recomendou-lhe a duquesa. J
programei um passeio de carruagem e uma visita  sra. Browning para esta
tarde.
- Serei pontual.
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MilHcent dirigiu-se para porta e Areta afastou sua cadeira.
- Tambm vai cavalgar esta manh, Areta? - o duque indagou num tom de voz
bem diferente do que usara at ento.
- Sim... tio Arthur. com Roland em casa os cavalarios esto muito
ocupados e no h ningum para acompanhar Milly.
- Est bem - o duque assentiu de m vontade. - Mas veja l como lida com
meus cavalos.
Areta fez uma breve mesura e deixou a sala de desjejum. Millicent j a
esperava. Tomando-a pela mo, puxou-a para a ante-sala mais prxima, para
segredar-lhe:
- Tenho certeza de que a carta que papai recebeu diz respeito  minha
pessoa. Pelo amor de Deus, Areta, descubra o que diz essa tal carta.
- vou tentar, mas no ser fcil.
- Posso estar enganada - Milly disse baixinho -, mas o modo como papai me
olhou e seu modo de falar foram muito reveladores.
- Tambm notei isso, Milly...
Ouvindo o rudo de uma porta se abrindo, Areta interrompeu o que ia
dizer.
- vou subir e trocar de roupa - Millicent disse, e correu para a escada.
Areta tambm correu, mas em outra direo, certa de que se o tio fosse
comunicar algo  esposa iria com ela para seu gabinete, cmodo que ficava
logo no comeo do corredor que conduzia  biblioteca.
Assim pensando, correu nessa direo, passou pelo gabinete e alcanou a
porta da biblioteca. Ento olhou para trs. Ningum  vista.
Ocorreu-lhe que talvez a carta que o tio recebera no tratasse do assunto
que ela e Milly imaginavam e o duque conversaria com a esposa sobre o
mesmo na prpria sala de desjejum.
Ao mesmo tempo algo lhe dizia que se a carta tratasse de algo particular,
o tio no se arriscaria falar, tendo criados por perto. Era bem mais
lgico ele ir ao gabinete, onde teria privacidade.
Fora Milly a primeira a descobrir que entre as duas portas, a do gabinete
e a da biblioteca, era possvel ouvir o que era dito num daqueles cmodos
sem despertar nenhuma suspeita.
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Sendo antiqussimo, o castelo de Shilton tinha paredes bem grossas e
possua portas de comunicao entre os cmodos, coisa muito comum em
casas ancestrais.
No andar trreo do castelo havia uma porta no gabinete que se comunicava
com a biblioteca e neste havia outra porta abrindose para o gabinete.
Portanto, entre essas duas portas havia um pequeno espao, justamente
devido  espessura das paredes, onde uma pessoa bem magra poderia ficar.
Bastava deixar a porta ligeiramente entreaberta para se ouvir o que era
dito num daqueles dois cmodos.
com muito cuidado, Areia foi para seu estreito esconderijo, entreabriu a
porta do gabinete sem o menor rudo e ficou aguardando. No foi preciso
esperar muito. Logo ouviu o duque e a esposa entrando no cmodo e a porta
se fechando.
- Ora, Arthur, para que tudo isto? - a duquesa perguntou.
- Tenho muito o que fazer. Certamente no havia necessidade de voc me
arrastar para c s para me dizer o que o duque de Kerncliffe lhe
escreveu!
- A carta vai surpreend-la, Elizabeth! J lhe adianto que se trata da
melhor notcia que recebo em muitos anos!
- Que notcia  essa?
- Kerncliffe deseja desposar Millicent!
Em sua excitao o duque falava muito alto e a esposa encarouo atnita.
- No acredito!
-  verdade e posso at lhe adiantar que sei o motivo de o duque querer
se casar.
- Sabe o motivo? Mas ele nem conhece Millicent!
- Ele quer se casar com nossa filha, e tenho certeza do que lhe afirmo,
porque a rainha est aborrecida com o comportamento dele e Lucy Neathton.
A duquesa deixou-se cair numa poltrona.
- No sei do que est falando.
-  muito simples, querida. Minha irm, Mary, disse-me confidencialmente,
h dois dias, que Lucy Neathton comentou que havia "fisgado um peixe
muito grande" e que havia chances de ele vir a despos-la.
- Quem  ele?
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 lgico que Mary se referia a Kerncliffe! - o marido replicou com certa
exasperao na voz.
- Mas se Kerncliffe vai desposar Lucy Neathton, por que voc me disse que
ele est interessado em Millicent?
O duque, que sempre havia considerado a esposa bem curta de inteligncia,
no momento levou a mo  testa como se procurasse um meio de explicar-lhe
o que tentava dizer com palavras bem simples e de poucas slabas.
- Eu at apostaria - ele prosseguiu - que a rainha Victoria, uma pessoa
esperta e que jamais se deixa enganar, acabou descobrindo que as
intenes do duque em relao a Lucy Neathton eram estritamente
aviltantes. Por essa razo deixou claro ao nosso Kerncliffe que no quer
mais v-lo contaminando o pequeno grupo de puras damas de companhia que a
cercam, em Windsor.
- Voc est achando que Sua Majestade ordenou ao duque que se case com
Millicent por causa disso?
- No! Acho que Sua Majestade comunicou ao duque que tratasse de
encontrar uma esposa e deixasse seus "lrios brancos" em paz.
- E voc est dizendo...
- Estou dizendo - o marido interrompeu-a - que Kerncliffe escreveu-me
insinuando que sendo ambos entusiastas por corridas, poderamos manter um
relacionamento mais estreito.
Ele explicou mais vagarosamente a parte seguinte.
- Kerncliffe comunicou-me que, se for conveniente para ns, ir visitar-
nos em Londres na prxima tera-feira e demonstrou entusiasmo em conhecer
nossa filha Millicent.
- S por isso voc deduziu que Sua Alteza pretende se casar com ela? E o
que tem a nossa filha a ver com cavalos de corridas?
- Nada, minha querida, nada mesmo! - O marido retrucou depressa. - Tudo o
que nos deve preocupar no momento  que Millicent atraiu para si o melhor
e mais brilhante candidato a esposo, no s desta, mas de qualquer outra
temporada!
Ele segurou o mata-borro com as duas mos ao acrescentar:
- Sempre considerei minha filha linda o bastante para conseguir um
excelente casamento, mas confesso que jamais sonhei
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com um genro da categoria de Kerncliffe!
- Bem, acho tudo o que me contou extraordinrio, uma vez que Sua Alteza
andou perseguindo lady Neathton.
- Minha querida Elizabeth - o marido comeou, demonstrando uma pacincia
louvvel -, o que importa quem Kerncliffe andou perseguindo, se agora ele
deseja se casar com Millicent? Nossa filha ser, sem exceo, a mais
importante, a mais rica e a mais linda duquesa deste pas! - O duque
abriu os braos. - Pelo amor de Deus, ela no receber uma bno, mas uma
cornucpia cheia delas!
Areta no esperou para ouvir mais nada. Ligeira e silenciosamente saiu de
seu esconderijo e entrou na biblioteca, tendo o cuidado de fechar as
portas para o tio no encontr-las, por acaso, entreabertas.
Passando pelo corredor pde ouvir os tios ainda conversando no gabinete e
sentiu-se segura. Atravessou o hall ligeira como uma cora, subiu os dois
lances de escada quase correndo para alcanar o segundo andar onde
ficavam seu quarto e o da prima, um ao lado do outro.
S no segundo patamar se deu conta de que o que iria dizer a Milly era
uma verdadeira bomba.
A notcia no s surpreenderia a prima como iria destruir sua felicidade.
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CAPTULO II

Areta correu para seu quarto, trocou-se depressa, vestindo o traje de
montaria e sem mesmo se olhar ao espelho, colocou na cabea o chapu de
equitao.
No corredor viu a prima saindo de seus aposentos.
- O que dizia a carta? - Milly perguntou, ansiosa.
- Conto-lhe tudo quando estivermos l fora.
As duas moas desceram a escada e saram por uma porta lateral em direo
s cocheiras onde dois cavalarios j tinham os cavalos preparados.
Foi com entusiasmo quase febril que Areta montou um dos mais fogosos
animais que havia nas cocheiras do tio. Se este se interessasse em saber
se a sobrinha montava bem, qualquer um dos cavalarios saberia inform-lo
de que ela dominava habilmente mesmo o mais indmito animal.
A pedido de Areta, os cocheiros sempre selavam para a experiente amazona
o cavalo mais difcil de ser controlado. Montar um desses soberbos
animais era para ela um prazer imenso que a fazia regozijar toda vez que
vencia um combate travado entre a cavaleira e a montaria.
No momento, preocupadas em se afastar da casa, as duas primas cavalgaram
depressa, atravessaram os paddocks atrs das cocheiras e alcanaram a
pradaria, alm da qual, a distncia, se avistava o bosque.
Depois de um breve galope, Millicent refreou seu animal.
- Preciso saber, Areta... estou com medo!
A prima, que tambm puxara as rdeas do garanho que montava, no
respondeu em seguida. Cada vez mais ansiosa, Millicent exclamou quase num
grito:
- Eu sei que foi aquele hediondo... conde de Marlow quem escreveu a papai
pedindo minha mo em casamento! - Milly
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emitiu um som semelhante a um soluo. - Ele pode ser rico e importante,
mas no me casarei com o conde e ningum me obrigar a isso!
- A carta no era do conde de Marlow - Areta tranquilizoua. - Voc no
ouviu titio mencionar o nome de quem a enviou?
- Nem prestei ateno. S fiquei alarmada quando vi papai me olhando...
daquele modo estranho. Eu estava pensando em William.
As duas seguiram alguns metros a passo antes de Areta explicar:
- A carta era do duque de Kerncliffe. Millicent mostrou-se surpresa.
- O que isso tem a ver comigo?
- Tudo!
- O que quer dizer?
- Ele quer... se casar com voc.
Millicent fitou intensamente a prima por um instante, depois replicou:
- No acredito! O duque jamais falou comigo!
- Tio Arthur acha que sabe o motivo de o duque estar pensando em se casar
to de repente e por que escolheu voc para esposa.
- Mas no me casarei com ele!
Millicent falou num mpeto e o que se seguiu foi um silncio que ela
prpria rompeu ao perguntar numa voz assustada:
- Voc acha que papai vai me forar a despos-lo? Oh, Areta, papai...
disse isso?
- Ele parece exultante com a ideia.
- No farei o que ele quer. No me casarei com ningum a no ser William!
Amo-o... voc sabe que o amo!
Areta respirou fundo. Precisava encontrar um jeito de dizer a Milly, sem
deix-la ainda mais aborrecida do que j estava, que parecia no haver
chance alguma de ela se casar com lorde Winterton.
O duque de Shiltonhurst no o vira com bons olhos e nem se dera ao
trabalho de consider-lo seriamente mesmo antes de Millicent ir para sua
primeira temporada em Londres, onde se
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tornara um sucesso!
E agora, tendo despertado o interesse do mais importante duque da regio,
William Winterton podia tratar de se convencer de que aspirar  mo de
Millicent seria to impossvel quanto alcanar as estrelas.
Notando o silncio da prima, Milly perguntou:
- O que farei? Oh, Areta... o que poderei fazer? Amo William e ele tambm
me ama. Detesto os outros homens. No quero danar com eles e no tolero
nem o pensamento de um deles... me beijar!
- Creio que ser melhor voc discutir o assunto com William - Areta
aconselhou. - Portanto, vamos encontr-lo o mais rapidamente possvel.
Sempre que Millicent saa a cavalgar com a prima encontravase
secretamente com lorde Winterton. Este a esperava no bosque que separava
sua propriedade da do duque.
Uma das coisas que irritava o duque de Shiltonhurst era no ser dono
tambm daquelas poucas centenas de acres bem no limite de suas terras;
mas infelizmente eles pertenciam aos Winterton h mais de trs sculos.
Aqueles poucos acres, o duque pensava, iriam conferir uma forma bem mais
atraente ao mapa de sua vasta propriedade.
Para William Winterton, mesmo no sendo rico, pensar em vender suas
terras e a casa ancestral lhe soava to absurdo quanto emigrar para outro
pas.
Ele e Millicent se conheciam desde crianas e foi inevitvel que agora,
contando ele vinte e quatro anos e ela dezessete, ambos se apaixonassem.
Para William, a linda Millicent reunia todas as qualidades que
considerava essenciais na mulher que escolheria para esposa.
Quanto a Millicent, William havia muito tempo fazia parte de seus sonhos.
Amava-o desde menina, quando comeara a ir com os pais a festas e
reunies que a sra. Winterton oferecia para a filha.
Nessas ocasies, cabia a WiLiam a tarefa de entreter as crianas, para as
quais ele sempre apresentava atividades divertidas como jogos encantados,
entre eks Laranjas e Limes e o Jogo
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das Cadeiras.
Millicent era a mais adorvel dessas crianas. J mocinha, recebia nos
cotillons mais ateno e mais presentes do que qualquer outra adolescente
como ela.
William e Millicent passaram a se encontrar tambm em caadas e nas
frias iam juntos a piqueniques e participavam de jogos campestres como o
conhecido Lebres e Ces.
Quando Millicent completara dezessete anos os dois comearam a se
encontrar s escondidas, o que era difcil, at a vinda de Areta para o
castelo dos tios.
A partir da os pais de Millicent passaram a permitir que a filha
cavalgasse s com a prima, sem a companhia de um dos cavalarios.
Muito discreta, Areta deixava os enamorados no meio do bosque, sentados
num tronco de rvore cado e partia cavalgando sozinha. Ouvindo o gorjeio
dos pssaros e a agitao dos coelhos em suas tocas subterrneas, seguia
contando a si mesma uma histria de faz-de-conta, na qual seus pais no
estavam mortos e a qualquer momento regressariam para o palcio onde se
haviam hospedado, na Itlia.
Essa mesma histria era-lhe repetida  noite quando, sozinha, chorava
muito, recordando a felicidade que conhecera e que perdera para sempre.
Estar no castelo de Shilton, sendo odiada pelo tio, desprezada pela tia e
tratada como se fosse algo sujo, a fazia desejar morrer. A morte dos pais
tornara-lhe a vida sombria, um mundo sem a luz do sol.
O pai de Areta, lorde John Hurst, era o filho caula do quarto duque de
Shiltonhurst e, como todos na famlia, era um homem alto, bonito, um
grande desportista e possuidor de tal simpatia e encanto que as mulheres
o consideravam irresistvel.
Em seu regimento lorde John havia sido um oficial excelente e lhe fora
prevista uma carreira brilhante.
Conforme a tradio, o filho mais velho, Arthur, era o herdeiro de toda a
fortuna da famlia e lorde John s poderia contar com pouco dinheiro.
- A melhor coisa que poder fazer, meu caro rapaz, ser
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encontrar uma esposa rica - o pai o aconselhara uma dzia de vezes.
Foi o que lorde John fez, mas infelizmente a mulher escolhida j era
casada com um eminente estadista da Cmara dos Lordes.
Sylvia Langley, linda e fascinante, era a segunda esposa de lorde
Langley, vinte e cinco anos mais velho do que ela.
Desde o momento que se conheceram Sylvia e John se apaixonaram. Como
resultado dessa paixo repentina os dois deixaram a Inglaterra, causando
o assombro de todos, a raiva do duque de Shiltonhurst e a fria de lorde
Langley que mais tarde conseguiu o divrcio por um ato do Parlamento.
Os Hurst cortaram relaes com lorde John e seu nome no era pronunciado
em pblico, embora em casa no pudessem evitar a constante maledicncia
sobre ele e lady Langley.
A famlia ficou sabendo que o casal fugitivo estava viajando pelo mundo
com todo conforto, visto Sylvia Langley ser muito rica.
Finalmente ambos compraram uma casa em Paris e ali recebiam as pessoas
mais interessantes da poca. Embora uns poucos aristocratas do Ancien
Regime os evitassem, a maioria aceitava a hospitalidade do casal de
nobres ingleses.
Na Inglaterra chegavam notcias constantes sobre as festas que Sylvia e
John ofereciam.
Quando o divrcio de lorde e lady Langley foi anunciado oficialmente,
Sylvia e John se casaram. A situao de ambos perante a famlia poderia
ter melhorado um pouco. Isto no aconteceu porque o velho duque soube por
amigos que um ms antes do casamento ser realizado nascera a filhinha do
casal.
- Uma bastarda! - o duque exclamara, furioso. - No vamos admitir isso em
nossa famlia, e, se dependesse de mim, exterminaria essa criana.
Depois disso o velho duque ordenou que jamais pronunciassem o nome do
filho perto dele.
Quando Arthur herdou o ducado recusou durante muito tempo a incluso do
nome de Sylvia Langley em sua rvore genealgica. O nome da criana,
fruto de uma unio ilegtima, foi
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excludo completamente.
Vivendo s com os pais Areta nem tinha ideia do que se passava na
Inglaterra. Viajara com eles por muitos pases da Europa, teve uma
educao bem cosmopolita, o que signficava o aprendizado dos principais
idiomas europeus, alm de seu francs perfeito.
Tambm conviveu desde pequena com pessoas inteligentes, interessantes e
divertidas, uma vez que em Paris lorde John gostava de receber
intelectuais. A esposa, para ver o marido feliz, j que no podiam voltar
para a Inglaterra, fizera questo de tornar sua casa, com seus luxuosos
sales, um ponto de frequentes reunies e festas s quais pouqussimas
pessoas recusavam um convite.
Na Frana era comum os filhos conviverem muito com os pais e Areta foi
criada participando dos almoos e festas oferecidos nos elegantes sales
de sua casa. Entre os convidados estavam o prncipe Napoleo e grandes
crebros do Segundo Imprio.
Ela tambm conheceu escritores como Gautier, Flaubert, Dumas Filho.
Algumas vezes esteve presente a jantares oferecidos a estadistas e
banqueiros influentes que a elogiavam, brincavam com ela e lhe ofereciam
chocolates ou pequenos presentes.
Ento aconteceu a tragdia.
Lorde e lady John Hurst foram passar uns dias na Itlia, a convite de um
dos prncipes da realeza italiana e levaram a filha consigo.
O magnfico palcio do prncipe ficava  beira-mar e ali os hspedes
desfrutavam do maior conforto e luxo que se podia conceber.
Lorde John logo se encantou com os barcos a vela, os mais velozes e mais
aperfeioados que j vira. Tendo grande habilidade para manejar
embarcaes, saa a velejar com a esposa e a filha quase diariamente.
Certo dia de vento um pouco mais forte do que o normal, lorde John e um
outro hspede decidiram apostar uma corrida de barcos. Areta teria
acompanhado os pais, no fosse tratarse de uma corrida, quando era melhor
a embarcao ficar mais leve.
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Dessa forma ela ficou no palcio com a filha do prncipe, quase de sua
idade.
Ao acenar para os pais  partida dos barcos, tinha certeza de que lorde
John seria o vencedor.
Ao fim da tarde os barcos no voltaram, o que comeou a preocupar o
prncipe e a princesa. A notcia terrvel chegou tarde da noite.
Uma tempestade repentina, no incomum no Mediterrneo, desabara, o mar
tornara-se violento e, no se sabe se por erro de clculo, pssima
visibilidade ou simplesmente azar, os dois barcos competidores se
chocaram e tombaram em meio s ondas tempestuosas, sem nenhum socorro por
perto.
Apesar de exmios nadadores, lorde John e sua esposa, alm do piloto do
outro barco pereceram no oceano encapelado. S duas semanas mais tarde
seus corpos foram arremessados pelas ondas numa das praias italianas.
A morte de pessoas importantes e hspedes do prncipe, ganhou as
manchetes dos jornais italianos e ingleses.
Os corpos de lorde John e da esposa foram levados a Paris e enterrados no
Cemitrio Ingls.
Ao voltar para a casa vazia, Areta pensou pela primeira vez o que seria
dela. Diversos amigos dos pais convidaram-na para ficar em companhia
deles, porm sua vontade era ficar algum tempo sozinha.
Uma de suas antigas preceptoras veio morar em sua casa para servir-lhe de
chaperon. Areta perambulava pelos cmodos silenciosos achando que s
poderia estar vivendo um pesadelo e quando despertasse ouviria o riso dos
pais e suas palavras amorosas.
Certo dia, inesperadamente, seu tio, o duque de Shiltonhurst, apareceu em
sua casa. Ao v-lo, e notando a grande semelhana fsica com o pai, Areta
ficou feliz. Porm, ao ouvi-lo falar rispidamente, tendo os olhos cheios
de dio, estremeceu.
- Quero que compreenda que voc constitui uma ndoa no nome da famlia. 
uma desonra que s mesmo seu pai poderia ter perpetrado de modo to
infame.
Areta o fitava sem saber a razo daqueles improprios e teve de ouvir
mais ainda.
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- Voc nasceu antes de seus pais se casarem, portanto, no teria o
direito de usar o nome de nossa famlia. Mas para evitar um escndalo e
para que na Inglaterra ningum saiba o que aconteceu, voc manter o nome
de Areta Hurst, mas lembre-se de que, cada vez que repetir seu nome,
estar dizendo uma mentira.
Os pais de Areta j lhe haviam contado como ambos haviam deixado seu pas
porque estavam loucamente apaixonados e s puderam se casar quando a lei
assim lhes permitira. Infelizmente a filha viera ao mundo um pouco
prematuramente, o que a tornou oficialmente ilegtima.
- Para todos aqueles que a amam, esse fato no tem importncia, querida -
lady John havia explicado. - Porm este  um detalhe que nem precisa ser
mencionado. Queremos que saiba a verdade para no se surpreender quando
for necessrio assinar algum documento em qualquer ocasio.
- Compreendo - Areta respondera. - Para vocs que so meus pais isto no
tem importncia, no  mesmo?
- No tem a menor importncia - a me lhe asseverara, estreitando-a nos
braos.
S ao ouvir as palavras do tio  rf percebera o quanto esse detalhe
significava para seus parentes.
- Embora eu possa me recusar a reconhec-la como sobrinha, no farei isso
- tio Arthur lhe disse. - Serei seu tutor e lhe oferecerei um teto. Fique
sabendo que estou agindo contra a minha vontade, mas, como j disse, no
quero escndalos nem quero ser acusado de deixar uma parenta rf,
abandonada.
Agitado, o duque andou de um lado para outro lado da sala para depois
continuar:
- vou lev-la para a Inglaterra. Estou ciente de que  grande a sua
herana materna; administrarei sua fortuna e enquanto voc estiver em
minha casa no lhe faltar nada.
Achando-se diante da lareira, virou-se para setenciar:
- Fique certa de uma coisa: jamais poder se casar!
- Por que no? - Areta perguntou, atnita.
- Porque nenhum homem decente h de querer ter como esposa uma filha
ilegtima. No tenho a menor inteno de proclamar
32
aos quatro ventos esta sua condio. Voc ser apenas minha
sobrinha, mas no participar de bailes, festas e recepes. Dessa forma
no ter ocasio de ser pedida em casamento.
Levou algum tempo para Areta se dar conta do que significava tudo o que o
tio lhe dissera, mas assim que compreendeu como seria sua vida na
Inglaterra, pensou, decidida, que mais cedo ou mais tarde encontraria um
modo de fugir e ter sua prpria vida.
No momento, porm, no tivera foras para argumentar, desalentada como se
encontrava pela morte dos pais.
O tio fechou a casa em Paris e colocou-a  venda. Tendo tido coragem de
protestar, Areta conseguiu permisso para despachar para a Inglaterra e
guardar no castelo coisas pelas quais tinha grande estima.
Ento, quase antes de poder tomar flego, deixou Paris.
Durante a travessia do canal e a longa viagem at o castelo, o tio mal
dirigiu algumas palavras  sobrinha rf que a cada instante desejava ter
morrido tambm com os pais.
Ao chegar ao castelo teve vontade de acabar com a prpria vida. Mas tendo
muito da exuberncia de lorde John e o que os franceses chamavam de joie
de vivre, soube que dentro de si mesma havia um forte desejo de continuar
vivendo. Apenas ansiava por levar a mesma vida que tivera com os pais e
no ver-se enterrada naquela escurido a que o tio a condenara.
S a prima Millicent tornava suportvel a vida da rf no castelo. Areta
era apenas seis meses mais velha do que Milly e esta, que sempre vivera
muito s, encontrara na rf a irm que nunca tivera.
Desde a chegada de Areta as duas ficavam juntas todo o tempo Que lhes
fosse possvel. Millicent ainda tinha uma preceptora Que logo descobriu
no ter o que ensinar  sobrinha do duque, vinda de Paris.
Na verdade, Areta ajudava a prima a melhorar sua pronncia quando tinha
lies de francs. Graas s suas descries sobre os diferentes pases e
sobre seus costumes, tornara os livros de histria bem vivos e atraentes
para a jovem estudante. E as aulas de Aritmtica passaram a ser muito
mais divertidas.
33
No incio de abril havia sido a poca de Millicent preparar-se para a
temporada em Londres.
Devido s datas de seus aniversrios, as duas moas haviam passado da
idade habitual de uma debutante ser apresentada  rainha.
Certo dia, estando s os membros da famlia na sala, sentados  mesa,
almoando, Millicent comentara ingenuamente:
- No ano passado ns no tnhamos idade para debutar e este ano j
passamos da idade!
- O que quer dizer com "ns"? - o duque indagou.
- reta e eu.
-  intil falar sobre isso porque Areta no tomar parte nas festas da
temporada.
- Mas... por qu, papai? Certamente ela dever ir conosco...
- Sua prima ir para Londres - o duque replicou muito srio. - Porm no
participar de quaisquer atividades sociais que esperam por voc, minha
filha.  minha palavra final e no quero saber de discusses.
Millicent ficara confusa e quando se vira a ss com a prima, esta lhe
dissera a verdade: havia nascido cedo demais.
- Mas que diferena faz apenas um desprezvel ms? - Milly argumentara. -
Voc  minha prima,  sobrinha de papai e ele no pode fingir que  de
outra forma.
- Tio Arthur jamais perdoar meu pai por ter fugido com mame.
- Mas  injusto! - Milly gritara. - Amo voc, Areta, e se sou bonita como
papai diz, voc tambm , porque somos muito parecidas.
Afinal a famlia foi para Londres e Areta compreendeu bem a diferena que
fazia "apenas um desprezvel ms". Quase diariamente Milly era convidada
para almoos e jantares. Havia bailes todas as noites e recepes
enfadonhas, porm cheias de pessoas importantes.
Areta no saa de casa. Nem cavalgar no parque lhe era permitido. Seu
nico excerccio era fazer caminhadas levando consigo uma das criadas que
a acompanhava sob protesto.
Quando havia convidados para jantar na Shilton House, muito deles
cavalheiros bem jovens, os quais o duque via como timos
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partidos para a filha, Areta podia apenas espiar por entre Os
balastres da escadaria as pessoas que iam chegando.
Em se tratando de bailes oferecidos pelo duque a sobrinha recebia ordens
expressas de se trancar em seu quarto para no se arriscar a ser vista.
Cada vez mais ela sentia recrudescer a vontade de fugir e decidiu que
tentaria voltar para Paris. O tio podia dizer o que lhe aprouvesse, mas
no ficaria mais em sua casa, ainda que tivesse de viver entre os
artistas de Montmartre, muitos deles protegidos de seu pai.
A nica dificuldade seria conseguir dinheiro. Como seu tutor, o tio
administrava a fortuna que a me lhe deixara, mas reclamava de cada pni
que punha nas mos da sobrinha. Tambm parecia ver com rancor as roupas
que ela passara a comprar.
- Por que essa vontade de se vestir to bem? - ele indagara quando
Areta lhe havia comunicado que no usaria mais luto.
- Por dois motivos: primeiro, porque papai sempre detestou a cor preta;
segundo, porque cresci nestes meses que estou aqui e minhas roupas no me
servem mais.
Devido sua insistncia o tio lhe dera algum dinheiro. Em geral era bem
pequena a quantia que o tutor lhe dispensava, alegando que Areta
precisava apenas de "dinheiro para seus alfinetes". Embora fosse rica,
ela sentia-se uma mendiga.
Cada vez mais decidida, prometeu a si mesma que to logo Milly se
casasse, iria fugir. Como o casamento da prima devia ser em breve, seria
conveniente comear a fazer seus planos para o futuro.
Naquele instante, preocupada apenas com a felicidade de Millicent, viu
que ambas haviam comeado a entrar no bosque. William Winterton j as
esperava no lugar de costume, sentando sobre o tronco de rvore cado,
seu cavalo comendo um pouco da grama que crescia por perto.
Assim que viu as duas aparecendo na clareira feita por lenhadores,
ergueu-se para receber Millicent que j saltara da sela e corria para ele
de braos estendidos.
- Oh, William! - gritou. - O que farei? Diga-me... o que farei?
Abraada ao namorado, Millicent tinha o rosto molhado de
35
lgrimas.
Areta cuidou de amarrar na sela as rdeas do cavalo da prima e deixou o
animal solto para pastar por ali como o cavalo pertencente a lorde
Winterton estava fazendo. Acostumados com a liberdade, os animais no
iriam para longe e atenderiam a um breve chamado assim que precisassem
deles.
Ento afastou-se, indo a passos pelas trilhas sinuosas entre os abetos.
Naquela manh no deu ateno aos pssaros ou  agitao subterrnea,
preocupada como estava em conseguir dinheiro suficiente para deixar o
castelo.
Chegando em Paris iria esconder-se do tio e procurar um emprego. O
problema era justamente o duque. Como detestava escndalo, no gostaria
que descobrissem que a sobrinha se havia aventurado pelo mundo.
Alm disso no lhe deixaria dinheiro algum e a traria de volta para a
Inglaterra.
- O que farei, papai? Sei que no deseja me ver infeliz, mas to logo
Milly se case ficarei sozinha no castelo sem ter uma s pessoa que seja
bondosa comigo - Areta murmurou, dando um suspiro. - O que aprendi com
voc e mame est sendo intil neste tipo de vida que tenho levado. Deve
haver um modo de eu utilizar todos os idiomas que aprendi.
Sensata, compreendia que era jovem demais para trabalhar como preceptora
ou acompanhante de uma lady j idosa, os dois empregos que poderia ter,
sendo filha de nobres.
Afirmou a si mesma, com confiana, que se pensasse bastante iria
descobrir uma atividade que lhe fosse conveniente.
J havia cavalgado durante quase uma hora e achou melhor voltar e ver o
que estava acontecendo com os dois namorados. Fez o caminho de volta
pensando em Milly, sabendo o quanto ela e lorde Winterton se amavam, no
ignorava que o tio, ambicioso como era, no permitiria que sua nica
filha recusasse o pedido de casamento do duque de Kerncliffe.
Naturalmente, j morando h alguns meses na Inglaterra, havia ouvido
falar sobre o duque de Kerncliffe. O prprio primo Roland sempre que
vinha para casa tinha prazer em descrever o modo brilhante como os puros-
sangues de Sua Alteza venciam as corridas mais importantes.
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No momento lembrou-se de Roland dizendo:
- Os melhores cavalos, as mais luxuosas festas e, claro, as mais belas
mulheres! Assim  Kerncliffe e ningum pode super-lo!
Ao ouvir tais palavras ditas com o maior entusiasmo, Areta se interessou
em ler sobre o duque nas pginas esportivas dos jornais. Acabou
descobrindo que seu nome tambm era frequentemente mencionado nas colunas
da corte.
Na revista Ladies Magazine encontrou uma reportagem sobre sua casa
ancestral, Kerne Park. Ao ver fotografias de Sua Alteza, notou com certa
emoo que ele lhe lembrava lorde John.
"Suponho que a semelhana reside no fato de ambos serem bem ingleses",
disse a si mesma com um sorriso.
No restava dvida de que o duque de Kerncliffe era um belo homem, porm,
para Millicent, no haveria nenhum outro como seu amado lorde Winterton.
"Pobre Milly, sinto pena dela!", pensou dando um suspiro. "Mas reconheo
que a situao dela no  to triste como a minha. Ser obrigada a tornar-
me uma solteirona pelo resto da vida! "
Veio-lhe  mente a felicidade que os pais haviam tido juntos. Nesse
instante teve certeza de que mais do que qualquer outra coisa no mundo
desejava ter seu prprio lar e vrios filhos.
Veio-lhe  mente o que ouvira da me certa vez:
- Gostaria de ter tido uma dzia de filhos, mas Deus foi muito bondoso em
ter me dado voc, minha querida, e sintome feliz, imensamente feliz e
agradecida a Ele!
"Algum dia tambm me casarei", Areta prometeu solenemente a si mesma.
"No me importarei se meu marido for um simples varredor de rua; pelo
menos no se preocupar com o fato de eu ser filha legtima ou ilegtima!
"
Na clareira encontrou a prima ainda chorando, enquanto lorde Winterton
tentava confort-la.
Desmontando, foi at os dois.
Oh, Areta, ajude-nos - Millicent pediu entre soluos. Eu no posso viver
sem William... no posso!
- E eu no posso deixar voc separar-se de mim - William disse. - Mas no
sei o que fazer para competir com Kerncliffe.
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Os enamorados fixaram seus olhares desesperados em Areta que se sentou na
grama, diante deles. Subitamente, como se captasse uma mensagem do pai,
soube a resposta para aquela aflio dos dois.
- S h uma soluo para vocs: fugir para se casarem em algum lugar.
Millicent e lorde Winterton olharam-na perplexos, demonstrando que jamais
haviam pensado numa loucura como aquela.
- Fugir? - Millicent murmurou numa voz sumida.
- Por que no? - William perguntou.
- Mas... como? Se fugirmos papai nos alcanar facilmente antes de
chegarmos a Gretna Green para nos casarmos sem proclamas e pela lei
escocesa.
- No iremos a Gretna Green. Conseguirei uma licena especial de
casamento e darei um jeito de mentir sobre a sua idade para voc no
precisar do consentimento paterno.
- Mas papai ficar... furioso. Sei que ele far tudo para anular o
casamento e poder at mesmo matar voc!
Miilicent chorava novamente. Vendo seu leno ensopado, Areta estendeu um
outro para a prima.
- Querida, se voc tiver coragem de fugir comigo, ficaremos escondidos
onde ningum possa nos encontrar - lorde Winterton sugeriu calorosamente.
- Depois de um ano, quando voc j tiver tido um beb, nem mesmo seu pai
vai quer-la de volta.
- Mas para onde iremos? Voc no poder deixar sua casa, seus cavalos.
Lorde Winterton criava cavalos de raa e esperava vender um bom ote por
alto preo e melhorar suas finanas. Millicent enxugou as lgrimas.
- Quero me casar com voc, querido, e viver em sua adorvel casinha. vou
ajud-lo com seus cavalos e tudo o que for preciso. No quero ser uma
duquesa! - Milly deu um doloroso suspiro. - Quando no o tenho ao meu
lado, detesto as festas. Como poderei abrir exposies de flores e fazer
parte de comits, como mame, se tudo o que mais desejo no mundo ...
estar com voc?
Para Millicent era como se j estivesse vivendo todas essas
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coisas e no podia estar mais desconsolada. Lorde Winterton abraou-a e
deixou-a reclinar a cabea em seu ombro.
"Tenho de ajud-los!", Areta pensou.
Concentrando-se, viu-se fazendo uma orao ao pai.
"Ajude-me, papai. Voc e mame fugiram e tiveram muito sucesso, a no ser
pelo meu nascimento prematuro. O que poderemos fazer para termos certeza
de que tio Arthur no conseguir anular o casamento desses dois? "
Subitamente deu um pequeno grito.
Foi to inesperado que Millicent e William voltaram-se rpidos para ela,
fitando-a indagativamente.
- Tenho uma ideia! E ela pode... pode funcionar! O que , Areta? - a
prima indagou.
-  a seguinte: vocs fugiro - Areta comeou a explicar vagarosamente. -
Mas o duque se casar. Sendo assim, tio Arthur no ir ao encalo de
ambos.
Os dois, ali sentados no tronco da rvore, encararam-na, confusos.
- No estou entendendo - lorde Winterton falou. - com quem Kerncliffe se
casaria?
- Comigo! - Areta declarou calmamente, depois de uma pausa.
O espanto dos dois foi inequvoco.
- No vai ser fcil, mas se o duque se casar pensando que eu seja
Millicent, vocs tero tempo de fugir - Areta explicou para o casal de
namorados que continuavam a fit-la assombrados.
- Sem dvida, trata-se do melhor plano que j ouvi - William observou. -
Mas, em nome dos cus, como isso vai ser possvel?
-  o que vamos estudar e teremos de ser cuidadosos para no haver erros.
Milly olhou para William.
- Oh, William, acha mesmo que isso vai dar certo?
- Sem dvida, temos de tentar.
Areta deu um pequeno grito ao ouvir essa resposta.
- No, no! Tentar e fracassar ser absolutamente fatal! Temos de
confiar no sucesso. Vejam bem, se o duque estiver
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se casando pensando que sua noiva  Millicent, vocs podero se casar,
partir para a lua-de-mel antes que haja qualquer chance de tio Arthur
encontr-los.
- Mas e voc? O que... lhe acontecer? - Milly perguntou demonstrando sua
aflio.
- O que poder acontecer? Qualquer coisa, mesmo casarme com o duque de
Kerncliffe, ser melhor do que viver no castelo sem voc, Milly, e
sabendo que sempre que tio Arthur estiver olhando para mim estar
pensando...
Ela quase se traiu, dizendo "que eu no passo de uma bastarda". A tempo,
lembrando-se de que lorde Winterton no tinha conhecimento do seu
estigma, disse depressa:
- Bem, sei que ser possvel executar o plano que aos poucos j est
sendo delineado em minha mente. Sei exatamente como agiremos.
- Pode contar comigo em tudo que for necessrio - lorde Winterton
asseverou-lhe. - Meu nico receio  confiarmos num sonho louco e termos
de acordar para a cruel realidade.
- Temos de estar bem acordados mesmo e atentos; em primeiro lugar, para
garantirmos que vocs dois se casem e que se escondam onde no possam ser
encontrados; em segundo lugar para cuidar de que o duque se case e
portanto no esteja mais disponvel! - Areta declarou com firmeza.
- Este segundo ponto  o mais importante - lorde Winterton concordou. -
Em todos os casos de fugas de namorados que esperam chegar a Gretna Green
o terror sempre tem sido que a noiva seja trazida de volta para se casar
com o noivo a quem havia sido prometida anteriormente.
- Exatamente! - Areta anuiu. -  por isso que insisto em que de nada
adiantaria vocs fugirem sem ter garantido que Millicent no corra o
perigo de ser arrancada de seus braos, William, para ser atirada aos do
duque!
- No quero ser atirada aos braos do duque! - Millicent interps. -
Quero estar sempre com William e se isso no for possvel, prefiro
morrer!
- No vai morrer, minha querida - o namorado asseguroulhe. - Se for
preciso, mato Kerncliffe para impedi-lo de se casar com voc.
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- Oh, no! Se fizesse isso, seria... enforcado! Por favor, Areta, fale-
nos sobre seu plano. Eu e William temos de ficar juntos.
- E ficaro - Areta prometeu. - Agora, ouam...
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CAPTULO III

- Estou com medo -. Millicent queixou-se. - Tenho certeza de que farei
alguma coisa errada.
- Vai fazer tudo corretamente - Areta acalmou-a. - Basta mostrar muita
timidez e falar o menos possvel.
- E se ele tentar me beijar? - Havia horror na voz da prima.
- Basta ser bastante hbil para impedir isso. Mas fique tranquila; 
improvvel que o duque tente uma coisa dessas logo na primeira vez que a
vir.
Parecia no haver outro assunto para as primas que s falavam no plano
sempre que se viam a ss.
Quanto a lorde Winterton, Millicent e Areta iam ao seu encontro toda vez
que surgia uma oportunidade, at a famlia do duque ir para Londres, na
segunda-feira.
At o ltimo instante as primas repetiram e tornaram a repetir o que
deviam fazer.
Millicent chorou desesperada ao ir para a cama na vspera da partida,
achando que nunca mais veria William.
- Claro que o ver novamente! - Areta afirmara, consolando-a. - Vai
sentir saudade dele enquanto estivermos em Londres, mas no se esquea de
que ele tem algo muito importante para fazer.
Areta dera a lorde Winterton a tarefa de comprar uma peruca da cor e da
mesma textura dos cabelos de Millicent. Para no haver engano, ele ficara
com uma mecha dos cabelos da namorada.
- Faa questo de comprar uma peruca feita com cabelos naturais - Areta
havia recomendado.
- Farei o melhor possvel - ele prometera.
Era evidente o desespero do rapaz e tambm de Millicent para que o plano
funcionasse.
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Naquele instante a prima dizia a Areta, quase numa splica:
- Seria to bom se voc pudesse ficar no salo comigo.
- O que est pedindo  realmente impossvel! - Areta disse sorrindo.
- Ento vai ter de ouvir a conversa entre o duque e meus pais; precisamos
ter certeza de que mame e papai estejam mesmo nos dizendo a verdade.
Essa era uma observao sensata. Assim, Areta decidiu que iria arranjar
um modo de ficar escondida no salo, um cmodo grande, mas que no
possua portas duplas como-no castelo.
Examinando o cmodo, ficou imaginando qual seria o esconderijo ideal.
Logo concluiu que s poderia ficar atrs das cortinas.
Havia trs janelas que se abriam para um pequeno jardim, na parte de trs
da casa. A ltima janela ficava alm da lareira e em frente dela havia um
piano de cauda.
Areta achou que se ficasse imvel atrs das pesadas cortinas de damasco,
seria praticamente impossvel algum saber de sua presena.
O pai de Millicent mostrava-se muito excitado com a visita do duque de
Kerncliffe, por isso recomendou  filha inmeras vezes que usasse o
vestido mais bonito e repetiu a ordem de colocar o champanhe no gelo.
 esposa informou que devia estar no salo s quinze para as trs.
- Pensei que o duque viria s trs - a duquesa observou.
- Foi a hora que combinamos - o marido argumentou mas  possvel que ele
se adiante.
A duquesa pensou com seus botes que isso era improvvel.
Areta no quis se arriscar e compreendeu que seria mais seguro ir para
seu esconderijo antes de qualquer pessoa ter a chance de chegar ao salo.
Este cmodo no era muito usado pela famlia, que geralmente preferia ir
para a sala de leitura, por ser menor, mais aconchegante e que tambm se
abria para o jardim.
Depois do almoo Millicent foi trocar de roupa e Areta aproveitou para
repetir pela ltima vez tudo o que devia ser feito. S ento foi para o
esconderijo atrs de uma das cortinas, sem Que ningum a visse.
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Ocorreu-lhe que a me estaria escandalizada ao ver o que sua filha estava
aprontando. Seu pai, no entanto, certamente a compreenderia.
- Se Millicent ia fugir como ele havia feito, toda cautela seria pouca
para que os pais da prima no tivessem a mais leve suspeita do que para
eles era uma coisa terrvel.
O importante era Areta descobrir tudo o que fosse conversado, planejado e
discutido. Cada detalhe devia ser levado em considerao.
Cerca de dez minutos depois que Areta se escondera, os tios entraram no
salo.
- Espero que Millicent j esteja pronta - o duque disse.
- Nossa filha j se encontra na sala de leitura esperando que voc mande
cham-la. Est lindssima.
Houve um instante de silncio. Pouco depois a duquesa perguntou:
- No ficou sabendo mais nada sobre esse desejo repentino de o duque de
Kerncliffe arranjar uma esposa?
- Fui ver Mary esta manh e, exatamente como eu j imaginava, confirmou o
que eu sabia. Ela me assegurou que no castelo de Windsor  como se nada
houvesse acontecido.
- Mas sua irm no lhe contou nada de novo? - a duquesa insistiu.
- Mary ouviu de boa fonte, ou seja de uma das damas de companhia da
rainha, que Sua Majestade chamou lady Neathton depois do incidente com
Kerncliffe e interrogou-a durante mais de uma hora.
- E descobriu alguma coisa?
- Ao que tudo indica a bela viva jurou ser inocente e a rainha acabou
acreditando que a pobrezinha ainda chora a morte do adorado marido.
A expresso da duquesa era de ceticismo e o marido acrescentou:
- Mary supe que a rainha descobriu alguma coisa que tenha incriminado
Kerncliffe, pois no foi mais visto no castelo e a rainha no tem ao
menos pronunciado seu nome, o que  de se estranhar, visto ele ocupar a
posio de estribeiro-mor.
- Parece que as suas suposies tinham fundamento - a
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duquesa observou um tanto acidamente. Nesse instante o mordomo abriu a
porta e anunciou:
- Sua Alteza, o duque de Kerncliffe!
- Meu caro Kerncliffe, que prazer imenso em v-lo! - O duque de
Shiltonhurst exclamou, indo ao encontro do recm chegado, estendendo-lhe
a mo.
- Devo dizer-lhe o mesmo - o visitante respondeu. - Boa tarde, duquesa.
Que lindas flores tem aqui!
- Trouxe-as do campo - a duquesa explicou. -  sempre uma grande alegria
ter as flores da primavera depois dos meses improdutivos de inverno.
O duque de Shiltonhurst mostrou-se inquieto, como se considerasse aquelas
amenidades perda de tempo. Foi direto ao assunto:
- Desejava me ver, no, Kerncliffe?
A duquesa indicou uma poltrona e o duque sentou-se, cruzando as pernas.
- Mencionei em minha carta que, considerando nossos interesses comuns,
principalmente no que diz respeito s corridas, seria vantajoso para
ambos fazermos ocasionalmente uma permuta com nossos garanhes.
Os olhos do duque de Shiltonhurst se iluminaram.
-  uma ideia esplndida que aceito com satisfao!
- Tambm gostaria - o duque de Kerncliffe prosseguiu com vagar - de ter o
prazer de conhecer sua filha Millicent, jovem de grande beleza, segundo
me disseram.
- Millicent  linda! - o duque de Shiltonhurst concordou com orgulho. -
Sua proposta, meu caro rapaz, tem a minha aprovao mais sincera e
entusistica, tanto minha como de minha esposa. Voc ter a mais bela
duquesa do reino! - Ele ergueu-se. - Isto merece uma comemorao!
Assim que tocou a sineta a porta abriu-se, numa evidente demonstrao de
que o mordomo j se achava  espera.
- Chamou-me, Alteza?
- Sim, Bateson. Traga uma garrafa de champanhe.
- Est bem, Alteza.
Vendo a porta se fechar, a duquesa sugeriu:
Espero que vocs se casem no vero quando as rosas todas
S
florescem.
- Receio no poder esperar tanto tempo; creio que a data ideal para o
casamento seja quinze de maio.
A duquesa emitiu um som que foi quase um grito.
- Quinze de maio? Mas no teremos nem trs semanas pela frente!
- Pensei em viajarmos para Paris em lua-de-mel, uma vez que dois cavalos
meus vo correr em Longchamp na semana seguinte - o duque exps com uma
ligeira nota de tdio na voz.
A duquesa ia objetar, porm o duque prosseguiu:
- Devem compreender que precisarei estar de volta  Inglaterra a tempo
das corridas reais de Ascot.
- Mas, caro duque, Millicent, precisa providenciar seu enxoval! - a
duquesa contraps.
- Insisto na data quinze de maio.  o mximo que poderei esperar!
Desta vez o tdio em sua voz foi to evidente que o duque de
Shiltonhurst, normalmente pouco perceptivo, teve a impresso alarmante de
que o noivo em perspectiva pudesse mudar de ideia. Ento, disse,
categrico:
- Ser quinze de maio! Afinal, acabei de gastar uma fortuna para o dbut
de Millicent e ela precisar de bem poucos vestidos novos!
A duquesa teria argumentado novamente no fosse a carranca que o marido
lhe dirigiu. S lhe restou resignar-se ao silncio enquanto Bateson
entrava no salo com o champanhe numa bandeja de prata.
O mordomo serviu a duquesa em primeiro lugar, em seguida os dois duques.
-  sua felicidade! - o duque de Shiltonhurst augurou erguendo sua taa.
- Obrigado - o duque de Kerncliffe agradeceu e tomou um pequeno gole do
vinho. - Agora bastaria que me concedessem o prazer de conhecer sua filha
- sugeriu, colocando a taa sobre uma mesinha lateral.
- Sim, sim, naturalmente - o duque de Shiltonhurst apressou-se em dizer e
olhou para a esposa.
- vou chamar Millicent - ela declarou, erguendo-se. 46
Asseguro-lhe, prezado duque, que nossa filha tambm est ansiosa para
conhec-lo. To logo ela deixou o salo, o marido explicou:
- Receio que, de certa forma, foi um choque para minha esposa a notcia
de um casamento assim s pressas. Mas compreendo seus sentimentos, meu
caro rapaz. O que me preocupa  como iremos justificar perante a
sociedade toda essa pressa.
- J pensei nisso. Talvez haja em sua famlia algum que possa vir a
falecer a qualquer momento; nesse caso as bodas teriam de ser adiadas por
vrios meses.
- Uma ideia brilhante! Eis a uma explicao muito sensata. Bem... deixe-
me pensar... - Fez-se uma pausa. -  isso! A tia de minha esposa, lady
Latimer, uma senhora maante, j com oitenta e sete anos, vive se
queixando de alguma coisa desde os setenta e no se cansa de anunciar que
vai morrer em
breve.
- Nesse caso, se essa senhora falecer, sua filha ter que guardar um
perodo de luto.
- Sim, naturalmente! Diante dessa possibilidade, quanto antes vocs se
casarem, melhor.
-  a minha opinio - o duque de Kerncliffe asseverou na mesma voz
parecendo impregnada de tdio.
Atrs da cortina, Areta ouvia com ateno, alm de usar toda sua
sensibilidade e seu sexto sentido. Por essa razo no duvidava que sob
aquele ar de tdio o duque sentia raiva e grande ressentimento por se ver
obrigado a se casar, no se sentindo disposto a isso.
Sua aguda percepo lhe assegurava que o tio tinha razo em supor que a
rainha forara o duque a encontrar uma esposa, uma vez que o havia
apanhado em alguma situao comprometedora com lady Neathton.
Em tais circunstncias, Millicent, que era uma pessoa meiga e delicada,
iria ser muito infeliz com um marido como o duque de Kerncliffe. O
casamento de ambos s poderia estar fadado ao desastre desde o incio.
"Ele s quer usar Millicent!", pensou, indignada.
A porta abriu-se e a duquesa entrou no salo acompanhada da filha, que
no poderia estar mais linda.
Conhecendo a prima, Areta calculava que a pobrezinha devia estar trmula
e com o corao oprimido.
Os cavalheiros se levantaram e a duquesa aproximou-se do duque de
Kerncliffe para fazer a apresentao.
- Esta, Alteza,  nossa filha Millicent!
- Encantado em conhec-la, lady Millicent - o duque pronunciou as
palavras num esforo para faz-las soar sinceras.
Millicent fez uma mesura e sua mo mal tocou a dele. Seu pai dirigiu-se
ao genro em perspectiva:
- Tenho certeza, Kerncliffe, que voc e Millicent gostariam de conversar
a ss para se conhecerem melhor. Portanto minha esposa e eu os deixaremos
sozinhos.
Ele voltou-se para a esposa.
- Vamos, Elizabeth, os dois jovens no se sentiro  vontade se ficarmos
ouvindo o que tm a dizer um ao outro.
Atrs da cortina Areta ouviu a porta se fechar e reinar por apenas um
instante, o silncio.
- Imagino, Millicent - o duque comeou -, que no h necessidade de
sermos formais, pois seu pai certamente j lhe disse qual a razo de eu
estar aqui hoje.
Numa voz quase inaudvel, Millicent respondeu:
- Sim, Alteza... ele me disse.
- Trouxe-lhe algo que, espero, seja do seu agrado e que o use sempre, uma
vez que tem pertencido  minha famlia h dois sculos.
Ele abriu um pequeno estojo de veludo que tirou do bolso e mostrou a
Millicent um lindo anel com um grande brilhante oval cercado de pedras
menores, tambm de brilhantes.
Millicent olhou para a jia por algum tempo, mas no fez nenhum
comentrio.
- Este anel foi dado pelo primeiro duque de Kerncliffe  sua esposa, no
dia das npcias e desde ento todas as duquesas de Kerncliffe o usaram.
Ele tirou o anel do estojo e segurando-o, disse:
- Espero que sirva em seu dedo.
com alguma relutncia, Millicent estendeu a mo para o duque colocar a
jia que ficou s ligeiramente larga no dedo anular.
- Poder ser apertado, se o desejar. Sem dvida, o anel fi48
cou lindo em sua mo.
- Obrigada - Millicent conseguiu dizer.
- Naturalmente - o duque prosseguiu, como se viessem  mente as palavras
de um discurso preparado -, espero faz-la feliz, como espero termos
muitos interesses em comum.
Ocorreu-lhe que talvez devesse beijar a noiva. Porm, como se lhe
captasse o pensamento, Millicent disse depressa:
- Convm eu ir mostrar este anel a meus pais... sei que eles vo admir-
lo... muito.
Mal acabou de falar, levantou-se e alcanou a porta quase correndo.
Abrindo-a, desapareceu. O duque, que a seguira com o olhar, deu um
suspiro.
Areta, que o ouvira, no soube se Sua Alteza se sentia aliviado ou
exasperado por ter de enfrentar aquele casamento.
Quanto ao duque de Kerncliffe, como se no quisesse esperar o duque e a
esposa, uma vez que no se sentia disposto a falar sobre os preparativos
para as bodas, deixou o salo.
Areta j se encontrava na saleta de estar que fazia parte dos aposentos
de ambas e que antes havia sido sala de estudos, quando dez minutos mais
tarde Millicent surgiu  porta e veio at a prima, esbaforida.
- Areta! Que bom ver que j est aqui! O que... foi que meus pais
disseram? Oh, foi... terrvel! - ela falava rpida e confusamente.
- Posso imaginar. Mas o importante  que tudo saiu s mil maravilhas.
- Graas a Deus ele vai para Newmarket e no precisarei v-lo at o fim
da semana.
- Ele lhe disse quando ser o casamento?
- No. Conversamos muito pouco. Quando ele estava de partida deixei papai
e mame enchendo-o de cuidados e atenes e sa de perto assim que pude.
- O duque insistiu que o casamento deve ser em quinze de maio.
Millicent encarou-a.
- Quinze de maio? - repetiu.
- Titia tentou argumentar, mas ele no cedeu. Quer essa
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data.
- Nesse caso... o que faremos? - Millicent perguntou, assustada.
- Para falar a verdade, acho que isso torna as coisas mais fceis. S que
teremos de agir depressa. Em primeiro lugar, vamos mandar um bilhete para
William.
- vou escrever para ele imediatamente e nanny vai dar um jeito de mand-
lo para seu clube.
A antiga ama de Millicent estava ajudando os namorados e fazia o papel do
que na Frana era conhecido como o de uma complice d'amour.
Ousado como era, lorde Winterton escrevia a Millicent com frequncia.
Endereava as cartas a nanny e as mandava pelo correio ou as colocava 
porta do castelo.
A mesma combinao existia na casa de lorde Winterton.
A ama era amiga da governanta de William e as cartas de Millicent eram
endereadas a esta ltima. Ningum achava que as duas, mulheres j
idosas, tivessem amizade e se vissem com frequncia.
Em Londres a correspondncia entre os namorados havia sido a princpio
mais difcil. Lorde Winterton ficava sempre no Boodle's Club, na St.
James's Street. O problema era quem poderia levar as cartas e bilhetes da
Shilton House, na Park Street, at o clube, e vice-versa.
A nanny tinha plena confiana num dos rapazinhos que ajudava na cozinha,
tendo vindo de uma das vilas que ficava na grande propriedade
Shiltonhurst. Sua me era parenta da ama.
Millicent escreveu depressa um bilhete e antes de sair para entreg-lo 
ama, disse  prima:
- Nanny cuidar da entrega disto a William, mas... e o vestido de noiva?
Como nos arranjaremos?
- Deixe por minha conta.
A duquesa levou Millicent a uma das lojas mais luxuosas da Bond Street,
onde encomendou o vestido de noiva e diversos outros para o enxoval.
A filha havia insistido para Areta acompanh-las.
- Seria timo se Areta fizesse as provas de alguns vestidos
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em meu lugar, mame - Millicent sugeriu. - Ora, por qu? a duquesa
perguntou com frieza.
-  to cansativo e terei tantas festas para ir, pois j as havia
aceitado e tenho certeza de que Sua Alteza me levar a muitas outras. No
quero me sentir exausta a ponto de nem conseguir divertir-me.
A duquesa reconheceu que era um argumento sensato. Acabou concordando com
a ideia, uma vez que Areta e a filha tinham o mesmo tamanho e quase
exatamente as mesmas medidas.
Naquela noite Millicent compareceu a uma festa que a me j aceitara
algumas semanas atrs. O pai lhe recomendou que no usasse o anel de
noivado, pois este ainda no havia sido anunciado no The Gazette.
- Teremos de participar o noivado de Millicent aos parentes mais prximos
antes que eles fiquem sabendo do mesmo pelo jornal, o que os deixaria
extremamente ofendidos - o duque havia dito com firmeza.
- Tem razo, querido - a esposa havia concordado. Creio que tambm ser
mais prudente voc no ficar se vangloriando desse noivado em seu clube.
O ligeiro embarao do tio fez Areta concluir que ele j havia dado a boa
notcia aos amigos mais ntimos.
A festa a que Millicent havia ido no a entusiasmara de forma alguma
porque William no estava presente. Todavia serviulhe de desculpa para
ficar deitada at mais tarde e Areta foi  modista em seu lugar. A nanny
a acompanhou.
Na vspera, a modista j mandara tirar as medidas de Millicent e
prometera que deixaria todos os modelos, riscos de bordados e um vestido
j armado para servir de prova.
Areta foi para a sala de provas sozinha com madame Bertin, uma francesa
dona da maison, e aproveitou para pr seu plano em prtica.
- Tenho uma outra encomenda, madame, porm espero que tudo o que lhe
disse seja mantido em segredo.
Embora fosse evidente sua surpresa, madame Bertin, mantevese em silncio.
- Sou sobrinha do duque de Shiltonhurst e tambm vou me
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casar logo depois de Millicent.
- Meus parabns, mademoiselle!
A modista no tivera conhecimento de que Areta era sobrinha de Sua Alteza
e agora, sabendo disso, estava preparada para trat-la com toda a
deferncia, como fazia com lady Millicent.
- Infelizmente, meu noivo est de luto fechado - Areta prosseguiu - e,
por se tratar de uma pessoa de grande importncia social, iriam
desaprovar sua atitude se nosso casamento fosse anunciado logo depois da
morte de seu pai.
Ela baixou um pouco mais a voz para dizer:
- At mesmo meus tios, o duque e a duquesa de Shiltonhurst,
desaprovariam.
Madame Bertin apenas assentiu com a cabea, indicando que compreendia.
- Meu noivo insiste em que nos casemos sem mais demora. Por isso est
providenciando para que nosso casamento seja celebrado sem qualquer
alarde na capela particular de sua prpria casa, o mais depressa
possvel.
- Compreendo. Por essa razo mademoiselle tambm deseja um enxoval.
- O mais importante  que eu tenha meu vestido de noiva! Sei que madame
entender que, mesmo se tratando de uma cerimnia simples, quero estar
bem bonita e esse vai ser um dia que jamais ser esquecido. Depende de
madame deixar-me to linda quanto vai deixar Millicent.
- Isso no ser difcil, mademoiselle - madame Bertin afirmou, admirando
a beleza de sua cliente.
- Desejaria ter um vestido maravilhoso como o de minha prima e do mesmo
modelo. Ele ser guardado como um tesouro.
- Ter exatamente o que est pedindo, mademoiselle!
- Tambm precisarei de outros vestidos. Porm ter de me prometer com
toda sinceridade que no dir uma palavra  duquesa. - Sua voz tornou-se
mais insistente. - Como j expliquei a madame, Suas Altezas ficaro
chocados por no compreenderem a deciso de meu noivo de nos casarmos,
mal tendo herdado o ttulo.
- Juro manter segredo. Quantos vestidos deseja encomendar?
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- Tantos quantos puder fazer neste curto prazo, considerando que lady
Millcent fez uma encomenda muito grande.
Madame Bertin calculou por um momento o que poderia prometer desde que
exigisse de suas costureiras horas extras de trabalho.
Afinal Areta soube com quantos vestidos poderia contar e comunicou que os
mesmos seriam diferentes dos de lady Millicent. Para a filha a duquesa
encomendara trajes bem rodados para serem usados sobre uma crinolina.
Desde sua vinda para o castelo Areta fizera amizade com o contador do tio
e explicou-lhe que viera da Frana, por isso sentia falta de notcias
desse pas, alm de ter grande interesse pela moda nos sales e na Rue de
Ia Paix.
O contador, que alm de inteligente era bondoso, notando que a sobrinha
do duque no era benquista pelos tios, escreveu para a Frana e
mensalmente comearam a chegar ao castelo, em nome dele, jornais e
revistas francesas. De algum modo lanou as despesas na contabilidade do
duque.
Era indescritvel a felicidade de Areta toda vez que subia para seu
quarto com jornais e revistas acabados de chegar. Por esse motivo estava
a par da moda em Paris.
Sabia que monsieur Frederick Worth havia lanado modelos de trajes
femininos bem diferentes dos usados at ento. Abolira completamente as
enormes e desajeitadas saias-balo.
Em lugar da crinolina que no deixava de ser um estorvo, as saias
femininas passaram a ser puxadas para trs formando as chamadas
"anquinhas".
Para a duquesa, essa moda era revolucionria demais e no quis se
arriscar a segui-la nem ao encomendar os vestidos da filha.
Quando Areta mostrou a madame Bertin os modelos que havia arrancado de
algumas revistas francesas, a modista ficou encantada por ter ocasio de
confeccionar modelos de acordo com a ltima moda de Paris.
- Logo depois que lady Millicent se casar - Areta segredou  modista -,
meu noivo e eu nos casaremos. Por essa razo, se fosse possvel entregar
todos os vestidos ao mesmo tempo, ficaria profundamente grata.
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- Pois no! Espero continuar a t-la entre nossas clientes especiais -
madame Bertin respondeu efusivamente.
- Todas as contas referentes aos meus vestidos devero ser enviadas ao
duque de Shiltonhurst que  meu tutor. Mas peo-lhe que as envie a meu tio
somente duas semanas aps as bodas de lady Millicent.
- Tudo ser feito exatamente como mademoiselle deseja.
Durante todo o resto daquela semana e na seguinte Areta experimentou um
vestido aps outro. Tambm saiu com Millicent para escolherem chapus,
sapatos, roupas ntimas deslumbrantes e enfeitadas com muitas rendas.
Tudo o que Areta comprou para si prpria pediu a madame Bertin que
debitasse em sua conta.
Quando o duque de Kerncliffe voltou de Newmarket anunciou seu noivado com
lady Millicent. Esta, a partir de ento, ficou atnita com o grande
nmero de cartas de felicitaes que recebeu e os incontveis convites.
Quanto a estes ltimos seria impossvel aceit-los todos e a duquesa e o
marido se encarregaram de escolher aqueles que desejassem aceitar.
A essa altura Millicent confiava no sucesso do plano de Areta e j no se
mostrava amedrontada na presena do noivo, embora continuasse a no
gostar dele.
- Como  possvel algum desejar para marido um homem como o duque? -
desabafou com a prima. - Sua voz de tdio  insuportvel. Alm de danar
comigo s uma vez durante o baile, parece que o fez por obrigao.
- Mas ele nem lhe disse que estava linda ontem  noite? Areta perguntou.
- Disse, mas com o mesmo ar de enfado e como se fizesse parte de seu
papel de noivo ter de me dirigir elogios.
Millicent ficou pensativa e, demonstrando sua preocupao, perguntou:
- Oh, Areta, no ser uma loucura se casar com ele? Assim que o duque
descobrir que o enganamos ficar furioso e a far sofrer.
- J pensei nisso. Mas o que quer que me acontea no ser pior do que
ficar no castelo sem voc. Considero esse casamento um meio de fugir. Se
o duque no suportar a ideia de
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estarmos casados posso sugerir-lhe que me deixe viver em Paris e nunca
mais nos veremos.
- Admiro sua coragem. Ao mesmo tempo sinto-me culpada porque sei que faz
isso por mim.
Areta beijou a prima.
- Amo voc, Milly. Sei que uma jovem meiga e bondosa como voc no
suportaria uma marido insensvel como o duque de Kerncliffe.
No mesmo instante ocorreu-lhe que talvez nem ela prpria o suportaria.
Seu nico consolo, como acabara de dizer, era ver-se livre do tio e do
castelo.
Pelo menos no teria de se lembrar a todo instante de sua condio de
filha ilegtima. Tampouco seria tratada como se fosse uma pessoa de casta
inferior a quem os indianos chamavam de "intocvel".
"Tio Arthur ter de entregar todo o dinheiro que me pertence e ento no
precisarei mais depender dele nem do duque de Kerncliffe."
Naturalmente, Areta no teve permisso de conhecer o duque, mas vira-o
algumas vezes quando entrava ou saa da casa dos tios. Em todas essas
vezes no lhe passou despercebido o ressentimento que ele guardava pela
obrigao daquelas visitas  noiva.
Embora reconhecendo que o duque era inegavelmente um homem bonito e
importante, considerava seu comportamento vergonhoso, uma vez que ia se
casar por uma motivo egosta.
"Ele est usando Millicent!", disse a si mesma mais uma vez. "Isto  um
insulto! "
A nanny no tardou a descobrir o motivo de o duque querer se casar.
Ocorreu a Areta que por mais que as pessoas se empenhassem em esconder
suas faltas, os criados sempre sabiam de tudo o que acontecia.
A irm de uma das amigas dela era a criada de quarto da viva duquesa de
Kerncliffe, me do duque. Por intermdio dessa criada a nanny ficara
sabendo que de fato o duque atrara para si o desfavor da rainha e esta
ameaara destitu-lo da posio de estribeiro-mor.
Eis a a razo de tudo! - Areta exclamou depois de ouvir
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o que a nanny revelara.
- Seria uma desonra para Sua Alteza ver um outro ocupando sua posio.
- Lgico - Areta concordou. - Mas foi uma infelicidade ele ter escolhido
justamente Milly para esposa se no gosta dela.
- Tambm no gosto dele! - Millicent acudiu. - Detesto o duque e chego a
ficar aterrorizada s de imaginar que algo possa sair errado e eu me
veja... casada com ele!
- Nem diga isso que d azar! S pense no seu casamento com William e na
lua-de-mel.
- Farei isso! - Millicent gritou.
- E lembre-se: como o duque tambm estar casado no haver possibilidade
de tio Arthur tentar trazer voc de volta.
- Estou rezando... rezando com a maior f para tudo dar certo.
- Asseguro-lhe que vai dar certo!
- Voc sente isso?
- Consigo captar o sentimento das pessoas e tenho a premonio de sucesso
no seu casamento com William. Posso jurar que ambos sero felizes, muito
felizes.
Dando um grito de alegria, Milly abraou a prima.
- Acredito em voc, quero acreditar, s posso acreditar! Ela beijou Areta
e acrescentou:
- Se o perverso duque expuls-la de casa ou se no quiser falar com voc,
haver sempre um lugar a sua disposio em
nossa casa.
- Obrigada, querida. Mas acredito que o "perverso duque", como o chamou,
poder ficar zangado, como seu pai tambm ficar, mas ningum vai querer
saber de escndalos. Este  o nosso trunfo!
com os dias passando, quinze de maio se aproximando, Areta no podia
deixar de se sentir nervosa.
Havia muita coisa em jogo e sendo uma jovem frgil, Millicent poderia ter
um colapso nervoso motivado pela tenso.
O duque de Kerncliffe, por achar que era seu dever de noivo, fez diversas
tentativas de abraar Millicent, mas ela sempre se lhe escapava. Quanto a
beijos, nem pensar. A noivinha estava determinada a entregar seus lbios
s aos de William.
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O pai da noiva mostrava-se to excitado que at parecia ser ele o noivo.
No se cansava de fazer votos  felicidade dos dois, bebia brindando a um
casamento perfeito e no perdia nenhuma oportunidade que se apresentasse
para chamar a ateno do duque de Kerncliffe para a beleza da noiva.
- Papai at parece que est vendendo um cavalo! - Millicent havia
comentado num lampejo de humor.
Passou pela mente de Areta que o tio sofreria o mais terrvel choque de
sua vida quando viesse a saber que a filha no se tornara uma duquesa.
Seria apenas a esposa de um simples baro!
No entanto, poderia ser pior. Se Millicent tivesse se apaixonado por
algum sem a integridade e o carter de lorde Winterton no iria se
empenhar para ajud-los como estava fazendo.
Os dois vestidos de noiva ficaram idnticos.
Na vspera de todos voltarem para o campo em preparao para o casamento,
chegou a peruca que William havia encomendado  casa mais famosa de
artigos para teatro.
Areta e Millicent se trancaram no quarto antes de abrir a caixa para
examinarem a encomenda. Sem dvida William tivera o maior sucesso em sua
incumbncia.
As duas primas tinham a mesma altura e eram bem parecidas; tinham o mesmo
rosto em forma de corao, olhos muito grandes, nariz afilado e lbios de
"rosa em boto".
Os olhos de ambas eram azuis, porm os de Areta eram mais escuros,
podendo sua cor ser comparada  de um mar tempestuoso.
A grande diferena ficava na cor dos cabelos.
Os de Millicent, de um tom dourado plido, lembravam, numa descrio
potica, as primeiras cores do crespsculo matutino.
Os de Areta, tambm dourados, mas de um tom bem mais intenso, pareciam
ter o calor do sol ao meio-dia. Neles havia toques muito leves de ruivo
que bilhavam como centelhas de fogo.
Sem uma peruca Areta no poderia se fazer passar por Millicent.
Desfazendo depressa o embrulho, pegou a peruca e foi Para a frente do
espelho.
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com cuidado colocou a cabeleira postia, escondeu bem os prprios cabelos
naturais e analisou sua imagem refletida no grande espelho do toucador.
No havia dvidas: quem a olhasse rapidamente a tomaria por Millicent.
A ama foi chamada imediatamente e com habilidade penteou a peruca,
reproduzindo nela o penteado de Millicent, obra de um famoso cabeleireiro
londrino.
- Vocs podem ser tomadas facilmente por irms gmeas!
- ela exclamou ao terminar o servio.
 - Areta  a que tem o crebro mais brilhante! - Millicent observou. Em
seguida um frio passou-lhe pela espinha. - Voc no acha Areta... que o
duque ir desconfiar quando a vir?
Sua voz saiu to trmula que a prima pde avaliar sua apreenso. Por isso
tratou de tranquiliz-la.
- Claro que no desconfiar de nada! Para comear, terei o vu da
famlia, que alis achei feio, escondendo meu rosto. Depois, nem duvide
que Sua Alteza se mostrar to entediado no decorrer da cerimnia que
antes pensar em si mesmo que em sua noiva!
No castelo a preocupao de Areta foi ensaiar o que Millicent e a nanny
teriam de fazer.
- A questo tempo  a mais importante - no se cansou de recomendar.
O que chamou de "seu programa" foi ensaiado, revisto e reensaiado at se
convencer de que a nanny e Millicent seriam capazes de repetir seus
papis mesmo dormindo.
A principal dificuldade acabou sendo Millicent que, cada vez mais
apaixonada, s queria estar com William o tempo todo.
O receio de Areta era que a prima, demonstrando tanta euforia quando ia
cavalgar, acabasse levantando suspeitas. Tio Arthur bem poderia mostrar-
se curioso.
Por segurana, Areta abandonou o hbito de cavalgar sozinha para deixar
os namorados  vontade na clareira, como tambm abdicou do prazer de
ouvir os pssaros, os rudos da mata e de contar a si mesma histrias de
faz-de-conta. Agora permanecia de sentinela entre o bosque e o castelo.
Se por azar o tio tivesse a ideia de segui-las, teria tempo de
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 avisar os namorados.
Para conforto de Areta o tio mostrava-se to exultante com a aproximao
do grande dia que a tratava quase gentilmente.
O duque chegou at a permitir, bem-humorado, que ela e MilHcent fossem
ajudar a enfeitar a igreja. Em outra ocasio ele responderia que aquele
trabalho s competia aos jardineiros.
Preocupada com detalhes, Areta fez questo de ir com Millicent  igreja
para conhecer bem o lugar.
- O primeiro momento perigoso de fato - Areta disse  prima - vai ser
quando eu tiver de assinar seu nome, na sacristia.
- Voc acha que... podem reconhec-la?
- O maior perigo vai ser sua me quando vier-afastar meu vu. Por isso
temos de deixar a sacristia o mais escura possvel.
Assim, enquanto os jardineiros enfeitavam o altar e enchiam os grandes
vasos laterais com lrios, as duas primas foram para a sacristia.
As duas janelas do pequeno cmodo, altas e estreitas, ficaram quase
escondidas pelos vasos repletos de flores e algumas folhagens, colocados
sobre os fundos parapeitos que depois foram recobertos de narcisos e
tulipas.
Terminado o arranjo da igreja, Millicent quis ver William e Areta achou
melhor fazer a vontade da prima. Foi vestir seu traje de montaria, embora
houvesse muitas outras coisas que desejasse supervisionar.
O encontro com lorde Winterton acabou sendo proveitoso porque os trs
fizeram uma reviso do plano.
- Willian no deve ficar esperando  porta dos fundos porque se
arriscaria a ser visto - Areta lembrou. - Fique entre os arbustos logo
depois das cocheiras.
Willian assentiu com a cabea.
- Assim que terminar a recepo no castelo, Milly sobe e troca bem
depressa; ento eu passo a ocupar seu lugar e vocs podero partir em
lua-de-niel.
- Bem, primeiro nos casa emos na igrejinha onde fui batizado. O velho
vigrio j est quase cego. Contei-lhe uma longa histria; disse que
precisvamos nos casar secretamente porque o pai da noiva no me aceitava
como genro, o que  inteiramente
verdade! S faltei com a verdade fazendo o vigrio pensar que a noiva
reside em outra parte do pas e por esse motivo tive de me valer de uma
licena especial de casamento. Ele sorriu para Millicent e a beijou.
- Foi providencial, querida, que voc tivesse dois nomes: Millicent
Adelaide. Como a lei exige s um nome de batismo, voc ser lady
Adelaide.
- Este era o nome de vov - Millicent explicou. - Papai tinha muito
orgulho de sua me ser afilhada da rainha Adelaide.
Areta riu.
- O mesmo acontecia com papai e meu segundo nome tambm  Adelaide!
- Ento o duque vai estar muito bem e verdadeiramente casado! - William
exclamou triunfalmente.
Millicent ficou mais junto dele.
- Oh, querido, ser to maravilhoso... to gloriosamente maravilhoso
estar casada com voc!
Percebendo que sua presena ali j era demais, Areta ergueu-se.
- vou ficar vigiando fora do bosque durante vinte minutos
- comunicou. - Depois disso ns duas voltaremos para o castelo. Tio
Arthur anda cheio de cuidados com Milly, mais parece uma galinha atrs do
nico pintinho. Na certa vai querer saberpor onde andamos.
William abraou Millicent e Areta afastou-se em seu cavalo, indo para
fora do bosque.
Enquanto vigiava, pensava romanticamente se algum dia algum homem a
envolveria em seus braos e a olharia com a mesma expresso que vira nos
olhos de lorde Winterton.
O que importava se esse homem era um duque ou um campons, desde que
houvesse amor?
Era o amor que podia fazer tudo parecer vibrante, cheio de vida, cor e
entusiasmo, tornando a vida um paraso.
Por um momento, teve medo do que havia planejado. Mas logo disse a si
mesma que se no podia ser amada, era melhor ser uma duquesa indesejada
do que receber s desprezo por ser filha ilegtima.
No entanto, todo o seu ser clamava por amor. Ansiava para
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ter beijos como os que Milly estaria recebendo naquele instante. Seu
peito palpitava s ao imaginar o xtase que a prima estaria sentindo e
que costumava transformar-lhe o rosto como se mil velas estivessem acesas
dentro dela. Sem mesmo se dar conta do que fazia, Areta viu-se orando:
"Por favor, meu Deus, conceda-me a felicidade de encontrar o amor...
ainda que seja s um pouco de amor, algum dia em minha vida! "
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CAPITULO IV

- Est linda, querida! - a duqueza exclamou. - Desa daqui a exatamente
cinco minutos. Seu pai a estar esperando no hall.
- Sim... mame - Millicent respondeu em voz baixa e lamuriosa como Areta
lhe havia recomendado.
A duquesa fitou a filha demoradamente como se lhe desejasse dizer algo.
Mas depois virou-se e deixou o quarto.
Mal a ama fechou a porta, Areta saiu do quarto de vestir.
Millicent fizera questo de vestir-se em um dos aposentos do castelo em
geral reservado para hspedes e no em seu prprio quarto. Embora a
duquesa achasse muito estranho aquele capricho da filha, deixou-a fazer
como quisesse.
 que ao lado do quarto onde Millicent se achava no momento havia de um
lado o boudoir e do outro um quarto de vestir, no passado usado como
toalete.
Areta apareceu no quarto usando um vestido de noiva exatamente igual ao
da prima.
Tendo passado a chave na porta, a nanny voltou correndo para o toucador
para tirar da cabea de Millicent a tiara e o longo vu de renda de
Bruxelas.
Colocou depressa a peruca de cabelos loiros-claros na cabea de Areta e
sobre ela o vu e a tiara.
com o vu cobrindo-lhe o rosto, seria quase impossvel qualquer pessoa
menos observadora afirmar que aquela no era lady Millicent.
Quando j ia entrando no quarto de vestir, Milly augurou num sussurro,
com a voz trmula:
- Estou rezando para tudo dar certo.
Ao notar que a prima parecia estar com medo, sentiu tambm um temor
fazendo eco em seu peito, mas recomendou calmamente:
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- Uma coisa que no pode de forma alguma nos dominar  o pnico. Acho uma
boa ideia fazer tio Arthur esperar um pouco, assim ele ficar todo
alvoroado com horrios e outras bobagens que quando me vir descendo, nem
vai reparar muito em mim.
Sem dar qualquer resposta, Milly juntou as mos, demonstrando sua
angstia. Tudo tinha de dar certo, uma vez que haviam ido longe demais.
A ama dava ainda alguns retoques no vu quando algum bateu  porta. Ela
caminhou sem pressa e ao abrir a porta viu um criado.
- O que ?
- Sua alteza est esperando e manda dizer que se Sua Senhoria no descer
j, chegaro atrasados  igreja.
- Diga a Sua Alteza que lady Millicent descer em alguns segundos.
Ela fechou a porta e voltou para Areta que deu mais uma ltima olhada 
sua figura refletida no espelho. Ergueu-se com vagar da banqueta achando
que sem dvida estava muito parecida com Milly. Todavia o perigo seria
quando erguesse o vu.
- Boa sorte, querida! - Millicent murmurou. - Estarei rezando
desesperadamente durante todo o tempo que voc estiver na igreja.
A porta j havia sido aberta e Areta no respondeu.
com a cabea levemente inclinada caminhou pelo corredor e desceu a
escada, sem pressa.
O vestido no tinha uma cauda longa porque a crinolina no Permitia, mas
era mais comprido na parte de trs. Por isso Areta segurou no corrimo
para evitar qualquer tropeo.
Como esperava, viu o tio andando inquieto no hall. Ao chegar ao ltimo
degrau apressou-se um pouco, pois ele j vinha ao seu encontro
exclamando:
- Vamos! Vamos! Voc no est querendo contrariar Kerncliffe antes mesmo
de casar com ele, no  mesmo?
A vontade de Areta foi responder que seria bem feito se ele tivesse de
esperar ainda mais. Na semana anterior ela tivera o cuidado de observar
bem o duque de Kerncliffe e se convencera de vez que ele era ainda mais egosta
e egocntrico do que havia imaginado a princpio.
Era verdade que estava sendo enganado; pensava que ia se casar com
Millicent e iria descobrir logo, logo que sua esposa era outra. Mas sem
dvida merecia ser logrado.
Pelo que Millicent lhe contava, o duque no lhe dava ateno quando
estavam sozinhos; nos bailes s danava com ela uma vez para cumprir seu
dever. Depois a deixava para ir jogar cartas.
Mesmo no tendo jamais ficado muito perto do duque, Areta sentia que ele
guardava dentro de si uma raiva surda, certamente por estar sendo
pressionado a se casar.
No, Millicent seria extremamente infeliz com um marido assim, uma vez
que era toda delicadeza, pura e sensvel.
Um criado ajudou Areta a subir na carruagem que esperava  frente da
casa. No banco do veculo estava o buqu de noiva, grande, vistoso e
excessivo, feito pelos jardineiros.
A carruagem ps-se em movimento e o duque disse:
- Sentirei muita falta sua, Millicent, mas considero um verdadeiro
triunfo v-la casada com algum to importante como Kerncliffe.
Areta no respondeu. Manteve a cabea baixa e o duque mudou o tom de voz.
- Compreendo que para uma jovem como voc a vida nova parecer um pouco
estranha a princpio. Mas Kerncliffe  um cavalheiro e vai trat-la muito
bem e com toda retido. Tenho certeza disso, mesmo sabendo que ele j
cometeu suas "loucuras" de homem solteiro.
A carruagem chegava  igreja que ficava logo depois dos portes do
parque.
Areta desceu entre os gritos de saudao dos moradores da vila que j se
achavam esperando pela noiva  porta da igreja.
- Boa sorte! Deus a abenoe, millady!
Areta no ergueu a cabea, permaneceu com os olhos baixos e aproximou-se
das seis damas de honra que, vestidas de corde-rosa, mais pareciam um
buque de rosas.
Do prtico ouviu a msica do rgo.
Segurando no brao do tio, foi sendo conduzida pela nave da igreja, bem
consciente da presena do noivo que a esperava a
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alguns metros de distncia.
A igreja era pequena e estava lotada. No s com as autoridades do
condado, mas tambm muitos amigos do duque vindos de Londres, alm dos
familiares ali presentes.
O padrinho do duque era Reginald Dalby.
S a este o duque revelava seus sentimentos. Ainda nessa manh Reggie
fora ao quarto do amigo e ouvira seu desabafo:
- Oh, Deus! Tenho mesmo de prosseguir com isso?
- Agora  um pouco tarde para mudar de opinio e fugir para a longnqua
Monglia!
- Ir para a Monglia seria infinitamente prefervel a ver-me casado com
uma das mais aborrecidas mocinhas que j conheci! - Cosmo replicou
enfurecido.
- Ela  adorvel. Alm de linda tem muita graa.
- Imagino que deve haver uma compensao. Pessoalmente acho esta situao
nauseante!
Reggie no respondeu. Foi at a janela e ficou um instante olhando para o
parque onde algumas coras se moviam sob os carvalhos.
Os dois amigos eram hspedes do governador do condado de Kent, um
aristocrata j idoso que havia conhecido o pai do duque.
Ambos haviam chegado de Londres j bem tarde, na noite anterior, e o
anfitrio tivera tato suficiente para no cansar o duque com uma grande
recepo. Sua Alteza e o amigo foram recebidos apenas pelo governador e
trs dos seus parentes.
Aps o jantar, o anfitrio sugeriu que o duque e Reginald jogassem
bilhar, livrando-os, assim, de uma conversa discursiva e desinteressante.
Na sala de bilhar, a ss com Reggie, Cosmo s havia falado sobre o que
considerava sua desventura.
Pela manh, Reggie constatou que o humor de Cosmo no havia mudado. Ali 
janela dizia a si mesmo que era tolice o duque ficar batendo na mesma
tecla. Querer salvar-se quela altura era mesmo que "remar contra a
mar".
- Estou aqui pensando - Cosmo estava dizendo - que voc talvez gostasse
de ir a Paris. Ento poderia me deixar mais animado.
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- Ora, meu caro companheiro, jamais faria isso em sua lua-de-mel!
- Lua-de-mel! - Cosmo exclamou irritado, suas palavras pareciam ecoar
pelas paredes. - Bem, em Paris terei amigos com quem conversar e sempre
haver a alternativa de poder ver La Paiva.
La Paiva era a mais famosa das cortess de Paris. Tendo nascido num gueto
de Moscou tornara-se a mulher mais rica, mais falada e mais enfeitada de
jias da capital francesa.
Em algumas ocasies ela havia feito companhia ao duque e este a achara
interessante e muito agradvel.
Apesar de Reggie achar que Cosmo no devia estar pensando em coisas desse
tipo, tampouco estar falando daquela forma, reconheceu que no tinha
outra alternativa a lhe oferecer. Ento, simplesmente, tentou encorajar o
amigo.
- Ora, homem de Deus, as coisas no podem ser to ruins como voc est
imaginando!
- Est assim to otimista porque no  com voc - Cosmo retorquiu com
sarcasmo. - Queria ver o que faria se estivesse em meu lugar.
O duque emitiu um som que deveria ser uma risada, mas que soou como um
gemido.
O valete entrou no quarto e a conversa foi dada por encerrada.
Agora Areta via-se ao lado do duque, diante do arcebispo de Canterbury.
Era forte a vibrao de raiva que sentia vindo do noivo.
A cerimnia religiosa no foi to demorada.
O pequeno grupo dirigiu-se  sacristia e ela pensou com certa apreenso
que aquele era o momento que tanto temera por ser o mais perigoso.
Para seu alvio constatou que os arranjos de flores permaneciam
exatamente como ela e a prima haviam deixado na vspera.
Sempre de cabea levemente inclinada, viu o vigrio procurar a caneta
para o duque assinar a certido de casamento.
A duquesa ficou diante dela e comeou a erguer o vu de renda. Areta
abaixou mais um pouco a cabea.
- Tente mostrar-se um pouco mais feliz, querida! - a duquesa segredou-
lhe.
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Sem ao menos entreabrir os lbios Areta deu uns passos  frente pegou a
caneta que o duque lhe estendia, tendo j assinado seu nome.
com uma caligrafia meio trmula imitou a letra da prima e escreveu
"Millicent Adelaide".
com evidente impacincia o duque ofereceu-lhe o brao e ao alcanarem a
capela-mor a organista fez vibrar no ar os primeiros acordes da Marcha
Nupcial.
Ao v-los j na nave da igreja, Reggie disse a si mesmo que jamais vira
um casal de noivos com aparncia to desconsolada.
O duque mantinha os lbios comprimidos e seu queixo se tornara ainda mais
quadrado. Qualquer pessoa que o conhecesse bem reconheceria que Sua
Alteza estava num dos seus dias de pssimo humor.
A noiva, por sua vez, mostrava-se to tmida que no seu rosto plido e
emoldurado pelo vu destacavam-se apenas os longos clios escuros.
Os moradores da vila saudaram os noivos  sada da igreja com uma chuva
de ptalas de rosas.
Eles tomaram a carruagem nupcial inteiramente decorada com flores da
primavera e puxada por cavalos enfeitados com arcos e flores ao pescoo.
Durante o trajeto at o castelo crianas atiravam pequenos buques de
prmulas e violetas na carruagem.
com alvio, Areta manteve-se meio virada para o duque e acenava para
aquelas pessoas que os saudavam entusiasticamente.
O duque apenas se limitou a erguer a mo e acen-la com indiferena.
 chegada ao castelo, Areta disse baixinho ao noivo enquanto subiam os
degraus da frente, cobertos pelo tapete vermelho:
- vou apenas ajeitar meus cabelos... encontro-o no salo de baile.
Sem esperar a resposta do duque, subiu depressa a escada. A nanny j
esperava  porta do quarto e assim que Areta entrou a porta foi trancada
a chave.
Millicent saiu em seguida do quarto de vestir, dizendo:
- Conseguiu, Areta! Voc conseguiu!
- Sim. Correu tudo bem! Agora ande depressa, desa at
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o salo de baile onde ele a espera.
Enquanto elas falavam a ama foi tirando a tiara e o vu da cabea de
Areta para coloc-los na de Millicent.
- Tem mesmo certeza de que ningum desconfiou? - Millicent indagou.
- Certeza absoluta! - Areta afirmou, tranquilizando-a. Vendo o rosto da
prima iluminar-se num amplo sorriso, e centelhas em seus olhos,
recomendou:
- Pelo amor de Deus, no fique assim to feliz!
- Mas estou radiante! - Milly exclamou. - Estou morrendo de felicidade!
Estou gloriosamente feliz! Acontea o que acontecer, o duque no poder
mais se casar comigo! 
- Calma! Ainda tem de se casar com William! - Areta lembrou-a. - E no se
esquea de que eu partirei chorando!
- Tentarei me controlar. Mas vai ser difcil fingir que estou infeliz.
Millicent olhou-se ao espelho. Em seguida saiu da banqueta num salto, e
Areta pediu-lhe:
- Desa com vagar e mostre-se bem tmida.
A prima dirigiu-lhe um sorriso radiante e desapareceu.
Areta foi para o quarto de vestir para trocar o vestido de noiva pelo
conjunto de viagem, tambm idntico ao que Milly usaria mais tarde quando
fosse ao encontro de William.
Ambos eram de tecido azul com babadinhos na saia; um casaquinho de veludo
podia ser usaao sobre a blusa e uma capa longa, mais quente, completava o
conjunto.
O gracioso chapu, enfeitado com pequenas plumas de avestruz, tinha um
pequeno vu circundando a aba, o que ajudava a esconder um pouco os olhos
de Areta.
Ela achava que seus olhos podiam denunci-la, no s pelo tom de azul bem
mais escuro, como por serem maiores e como seu pai costumava dizer, muito
expressivos.
J pronta, calculou que teria de esperar pelo menos uma hora pelo
regresso de Millicent. Havia muitas pessoas para cumpriment-los, o bolo
para ser cortado com a espada do noivo.
Indubitavelmente haveria alguns discursos enfadonhos, os quais o noivo
acharia ridculos e desnecessrios.
Pelo que j conhecia a respeito do duque, imaginava que ele
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estaria ansioso para partir em lua-de-mel o mais depressa possvel. Havia
uma longa viagem a ser feita e seria falta de bom senso se cansarem mais
do que o necessrio.
Como se lhe pudesse ler o pensamento, Areta soube que o noivo se achava
ansioso no salo de baile,  espera da primeira desculpa que se
apresentasse para deixar aquela recepo aborrecida o quanto antes.
Millicent subiu rapidamente a escada e bateu  porta do quarto. A ama
trancou-a, mal a jovem entrou, e ps-se a tirar-lhe todos os adereos
nupciais e o vestido, to rapidamente quanto pde.
Ajudando-a, Areta deu as ltimas instrues  prima:
-  importante que voc saia enquanto todos estiverem  frente da casa
esperando os noivos para lhes jogarem arroz e ptalas de flores.
- E se William... ainda no estiver me esperando?
- Ele estar no lugar combinado - Areta assegurou-lhe, cheia de
confiana. - Tome cuidado porque no poder, em hiptese alguma, ser
vista.
A nanny terminou de vestir e pentear Milly que ficou exatamente como a
prima. As duas se abraaram, despedindo-se.
- Obrigada... muito obrigada, querida Areta! Jamais me cansarei de ser-
lhe grata por ter sido to maravilhosa!
Depois de uma pausa, acrescentou:
- J sabe que se o Terrvel Duque no a tratar bem, ser sempre bem-vinda
em nossa casa!
- Obrigada, Milly. Agora v depressa para no deixar Willian preocupado.
O nome do namorado deixou Millicent cheia de nimo. Saindo do quarto pelo
boudoir, atravessou um segundo quarto de vestir, alcanou um corredor
completamente ermo e num segundo desceu por uma escada lateral que
conduzia ao jardim.
Como Areta previra no havia viva alma por perto. Os criados haviam ido
para fora do castelo ou para as janelas da frente, pois no queriam
perder a cena sempre romntica dos noivos Partindo em lua-de-mel.
No havendo literalmente ningum para v-la, Millicent correu at os
arbustos onde William j a esperava.
No quarto, Areta esperou alguns minutos e sorriu para a ama.
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- Agora, vamos transpor o ltimo obstculo! Pelo bem de Millicent, vamos
rezar para eu no levar uma queda!
- No cesso de rezar para minha criana ser muito feliz! - a nanny disse
com lgrimas nos olhos e a voz embargada pela emoo. - No nego que
sonhei v-la tornar-se uma duquesa, mas ela jamais seria feliz a no ser
com Sua Senhoria!
- Assim que o tio Arthur tomar conhecimento do que aconteceu, v fazer
companhia a Milly. No resta a menor dvida que haver o maior tumulto
neste castelo e "sua criana" precisar muito de t-la por perto, nanny.
- Farei companhia a ela! - a ama prometeu. - E Deus a abenoe, senhorita
Areta, pela sua bondade.
Areta beijou a velha nanny no rosto.
- Agora estou pronta para enfrentar o inevitvel. Ouviu-se uma batida 
porta e a ama dirigiu a Areta um olhar
significativo antes de ir atender.
- Sua Alteza pede para a noiva se apressar - um criado comunicou quase
sem ar. - Os cavalos mostram-se desassossegados.
Ocorreu a Areta que o duque j devia estar dentro da carruagem em que
viajariam, impaciente para chegar depressa  primeira parada que teriam
de fazer.
O veculo era dotado de molas excelentes o que o tornava confortvel. Era
leve, puxavam-no quatro cavalos, e sua capota podia ser erguida sobre
os passageiros caso chovesse. Mas o cavalario que viajava na parte de
trs, ficaria molhado.
O criado voltou para o andar trreo e Areta esperou um pouco antes de
descer. A nanny entregou-lhe um lencinho debruado com renda.
Os convidados que esperavam pela noiva no hall surpreenderam-se ao v-la
descendo a escadaria com a cabea inclinada e levando o lencinho aos
olhos.
Assim que ela tocou o piso de mrmore, cercaram-na para dizer-lhe adeus.
com habilidade, Areta conseguiu chegar at os tios que a esperavam 
porta de entrada.
- Adeus, querida - a duquesa falou emocionada, beijando-lhe com
dificuldade um lado do rosto, porque a noiva mantinha a cabea baixa.
70
- Oh... mame! - Areta murmurou, dando um soluo. O duque no a beijou.
Apenas deu-lhe o brao e desceu com
ela os poucos degraus. Ao ergu-la e coloc-la na carruagem, disse
alegremente:
- Vai divertir-se quando chegar a Paris!
O noivo, que estivera segurando as rdeas para controlar com alguma
dificuldade os cavalos, fez um sinal com a cabea que o cavalario
entendeu e ligeiro subiu em seu banquinho traseiro.
Sob vivas ao "feliz casal" e uma verdadeira tempestade de arroz e ptalas
de flores, a carruagem partiu.
O duque colocou na cabea o chapu que havia erguido em agradecimento aos
vivas e se concentrou em conduzir seus cavalos com tal percia que Areta
no pde deixar de admirar.
Ningum disse uma palavra.
Eles passaram pelo porto de acesso ao castelo, atravessaram a vila e
alcanaram a estrada principal, bem larga que permitiam aos cavalos
desenvolverem maior velocidade.
Areta guardou seu lencinho e pensou, agradecendo aos cus, que felizmente
no estava a ss com o duque numa carruagem fechada.
Para maio, aquele era um dia quente. O cu estava claro e a estrada seca,
pois havia alguns dias que no chovia.
Millicent informara  prima o que o noivo lhe tinha contado sobre a
viagem de lua-de-mel.
Na verdade, instruda por Areta, Milly fizera vrias perguntas ao duque
para ir descobrindo coisas que a prima precisava saber.
Agora, viajando na carruagem, pelo menos sabia para onde se dirigiam.
O duque possua uma casa no muito distante de Folkestone, onde ele
mantinha seu iate. Pouco depois de trs horas de viagem, chegaram a essa
casa, uma construo pequena, do perodo da rainha Anne, localizada em
meio a um adorvel jardim cheio de flores da primavera.
No hall, Areta notou que a moblia era do mesmo perodo em que a casa
havia sido construda. No se mostrou surpresa Porque j sabia que o
duque era um homem de gosto refinado e que todas as casas primavam pelo
luxo e requinte.
71
Seria to bom se ambos pudessem conversar sobre aquela casa em que
encontravam, particularmente to atraente.
Todavia no estava em seus planos nenhum tipo de conversa ou de
aproximao na primeira noite de lua-de-mel.
Willian lhe havia pedido:
- Vai ser difcil para voc, sei disso, Areta, mas procure nos dar
bastante tempo antes de a tempestade desabar.
- Farei o possvel - prometera.
- Iria nos ajudar muito se vocs j tivessem atravessado o canal quando o
duque vier a saber que foi enganado.
Notando o olhar indagativo de Areta, Willian explicara:
- Quando souber de tudo, o duque ter de decidir se voltar para contar
ao pai de Millicent o que aconteceu ou se ir primeiro para Paris e l
pensar com calma sobre um assunto to srio.
- Compreendo. Devo tentar manter o duque na ignorncia at alcanarmos o
solo francs.
- To logo conte a Kerncliffe toda a verdade, escreva-nos comunicando o
que ele pretende fazer - William pedira.
- Prometo fazer isso.
- Ns ficaremos escondidos o maior tempo possvel - William dissera com
um sorriso.
- E muito... muito felizes - Milly acrescentara.
- Fiquei acordado esta noite s pensando no quanto lhe sou grato. Eu j
tinha me convencido de haver perdido Millicent para sempre!
Seu tom de voz revelou a Areta o desespero que ele sentia.
- Tambm lhe sou grata pela chance de fugir do castelo.
- Entendo. Mas lhe asseguro que Kerncliffe no  um homem de fcil
convivncia.
- Se ele me expulsar de casa - Areta dissera bem-humorada
- terei meios de me manter.
- Eu ia mesmo lhe perguntar se no precisar de dinheiro
- William lembrara.
- Tenho as jias que pertenceram  minha me - Areta respondera,
sentindo-se segura.
Areta havia pensado num modo de ter em mos as jias que havia herdado e
pusera seu plano em ao.
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O tio guardava em seu cofre todas as jias que ele mesmo pegara em Paris.
Apesar de lady John j possuir peas valiosas quando fugira com lorde
John, este continuara a comprar a esposa as mais lindas gemas alegando
que fazia questo de realar ainda mais sua beleza.
Naturalmente o dinheiro para pagar as jias vinha de lady John.
Apesar de ter herdado uma belssima coleo, Areta usava apenas um
delicado colar de prolas. Alm disso, desde sua vinda para o castelo no
convivia com nigum mais, a no ser a famlia do tio.
Na vspera do casamento, quando todos se mantinham ocupados inclusive tio
Arthur, ela foi para o escritrio do secretrio.
Encontrou o sr. Stigman  sua escrivaninha ocupado com uma pilha de
cartas, documentos e contas. Ao ver Areta, levantou-se.
- Boa noite, srta. Areta. Deseja alguma coisa?
- Sinto aborrec-lo - ela desculpou-se. - Vejo que tem muito a fazer, mas
gostaria de ver as minhas jias que titio mantm em seu cofre.  que, no
dispondo de dinheiro para comprar um presente para Millicent, vou dar uma
das peas que herdei de mame.
No era um pedido extraordinrio e o sr. Stigman compreendeu. Alm disso,
no ignorava que o tio no tratava bem a sobrinha.
Indo ao cofre, abriu-o e tirou trs caixas grandes de seu interior.
- Qual dessas caixas deseja, senhorita?
- Deixe-me lev-las para lady Millicent escolher. Minha prima tem estado
tristonha por ter de deixar sua casa. Quem sabe eu consiga alegr-la
mostrando-lhe as lindas jias que mame me deixou.
Achando que Areta era uma jovem sensvel e sensata, o secretrio lhe
entregara as trs caixas.
Areta realmente deu a Millicent um lindo broche com prolas e brilhantes
que a deixou maravilhada.
Mas as caixas contendo as preciosidades no voltaram para cofre. Foram
embrulhadas e colocadas na bagagem.
As malas de Millicent foram arrumadas s pela ama e Areta, e depois
escondidas em uma cabana de madeira abandonada,
73
perto do bosque, onde lorde Winterton veio peg-las.
Os grandes bas de tampa abaulada, destinados  volumosa bagagem de lady
Millicent receberam a bagagem de Areta que, por ser bem menor, deixou-os
quase vazios. A nanny acabou de ench-los com jornais, uma vez que iriam
demorar a ser abertos.
S o criado que veio apanhar a bagagem e lev-la para a carroa que
partiria bem da carruagem dos noivos, surpreendeu-se ao notar o pouco peso
de bas to grandes.
Todavia, um ba menor, contendo o enxoval que Areta havia comprado em
Londres, alm de alguns objetos pertencentes a Millicent, ficou
completamente cheio.
Somente este ba seria aberto nos primeiros dias de lua-de-mel.
Felizmente, o duque de Kerneliffe afirmara com certa veemncia que ro
havia necessidade de Millicent levar consigo uma criada particular e
alegara:
- A experincia me ensinou que  um erro levar criados ingleses para
outros pases. Alm da dificuldade da lngua, eles acabam tendo
desentendimentos.
A duquesa cedera  fora do argumento.
- No e preocupem com o bem-estar de sua filha - o duque tranquilizou os
pais. - Millicent ser mimada por uma criada particular excelente assim
que chegarmos a Paris. Tambm teremos para nos servir vrios criados,
arrumadeiras, camareiras e, claro, meu valete, em todos os outros lugares
para onde formos.
Ao saber disso, Areta sentira que um pesado fardo lhe foraremovido dos
ombros, j que nanny, a nica que poderia acompanh-la, precisaria ficar
no castelo para dar apoio  sua "criana" Millicent.
Agora, naquela encantadora casa do perodo rainha Ahne, teve certeza de
que no seria difcil entender-se com os criados do duque.
Subindo para o lindo quarto de paredes brancas revestidas de painis com
uma cama com cortina de damasco azul, encontrou a governanta e uma
criada, j idosa, cuidando da bagagem que precedera a carruagem, tendo
vinda na carroa.
74
- Boa tarde - Areta cumprimentou as duas serviais que lhe faziam uma
mesura. - Estou exausta... Preciso me deitar um pouco...
- Pois no, Alteza! - acudiu a governanta. Enquanto as duas a ajudavam a
se trocar, Areta deixou deliberadamente os braos bem soltos. To logo
vestiu uma camisola comprada na Bond Street, deixou-se conduzir
odedientemente para a cama e fechou os olhos.
A criada desceu as persianas, correu as cortinas e saiu com a governanta.
Vendo-se sozinha, Areta permaneceu deitada, agradecendo a Deus e
congratulando-se por tudo haver transcorrido sem problemas at o momento.
quela altura William e Millicent j estariam casados e a caminho da casa
que ficava em Sussex, emprestada por um amigo de lorde Winterton.
- Ningum pensar em nos procurar l - William havia explicado. - Alm
disso, ficaremos sozinhos.
Lembrando-se disso e do olhar terno que William havia dirigido a Milly,
Areta sentiu uma pontada de inveja da felicidade que os dois estariam
desfrutando.
Mas ainda no havia chegado ao fim do percurso; teria grandes e
desagradveis obstculos pela frente. Disse ento a si mesma que no
chegara o momento de pensar em seus problemas. Era importante ganhar
tempo para garantir o sucesso da fuga de Milly e William.
No adormeceu, mas continuou deitada at ouvir a governanta entrar no
aposento de mansinho. Quando as cortinas foram afastadas, fingiu estar
despertando e perguntou com voz sonolenta:
- Que... horas so?
- Pouco mais de sete, Alteza. Imagino que queira um banho antes do
jantar.
Areta fechou os olhos e murmurou numa voz queixosa:
- Estou com uma... terrvel dor de cabea. Por favor... informe Sua
Alteza que... lamento muito, mas prefiro no descer. A agitao do
casamento e a viagem me deixaram exausta. Gostaria que me trouxessem...
apenas algo bem leve para comer.
Apesar do evidente espanto, a governanta apressou-se em dizer:
75
- Compreendo como se sente, Alteza, mas lhe asseguro que Sua Alteza
ficar desapontado.
- Oh, sinto muito... muito mesmo. Mas estou completamente exausta! E essa
dor!
Mal disse isso numa voz esmaecida, fingiu que adormecia novamente,
virando-se, antes mesmo de a governanta deixar o quarto.
Meia hora mais tarde abriu os olhos quando uma bandeja foi colocada ao
lado da cama; uma voz respeitosa informou-a de que Sua Alteza compreendia
que a esposa se sentia fatigada e esperava v-la bem-disposta pela manh.
com prazer e apetite Areta saboreou o delicioso jantar que lhe fora
trazido.
Ento se perguntou o que o noivo estaria sentindo por ser deixado sozinho
na sua noite de npcias.
Embora surpreso, o duque sentiu-se imensamente grato.
com certa ironia pensou que pela primeira vez na vida uma mulher no
deixava bem claro que estar com ele era o mximo que poderia ambicionar.
Cosmo sabia que Belinda ou qualquer outra mulher com quem fizera amor
seria capaz de andar descala no Himalaia se isto fosse uma condio para
passar a noite com ele.
Mulher alguma deixaria de considerar lamentvel perda de tempo jantar
sozinha em seus aposentos quando poderia estar gozando de sua companhia.
Porm no deixava de ser um alvio ser poupado de ficar a ss com lady
Millicent conversando sobre a cerimnia do casamento, a recepo e os
presentes, pois no haveria outro assunto comum a eles dois.
Apreciou, portanto, o excelente jantar preparado por um dos seus chefs
que viera de Kerne especialmente para a ocasio.
 medida que um prato se seguia ao outro, disse a si mesmo que
provavelmente a noiva no iria gostar daquelas iguarias, caso tivesse
descido para sentar-se  mesa com o noivo.
"Jovem alguma sabe apreciar uma boa cozinha", pensou.
Ocorreu-lhe que isto tambm acontecia com as mulheres mais experientes
com quem costumava passar o tempo. Vaidosas, elas
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tinham a preocupao constante com a silhueta, desejando manter o que
costumavam chamar de "contornos de ampulheta".
Depois do jantar, na biblioteca, o duque se distraiu lendo os jornais.
Mais tarde decidiu que devia, pelo menos, mostrar-se corts e ir dar boa
noite  noiva.
Teve de admitir que sua noite de npcias no estava sendo nem uma sombra
do que havia imaginado. Na verdade at estremecera ao pensar em fazer
amor com a mocinha ingnua que se tornara sua esposa.
Ainda se ressentia do fato de ter sido forado a colocar-lhe no dedo um
anel de casamento.
"Mas a pobre tolinha no tem culpa de nada!", reconheceu, sendo honesto
consigo mesmo.
No era justo querer impor a ela uma culpa que era s dele. Mas a simples
ideia de ver-se amarrado a uma esposa, f-lo ferver de raiva.
"Fui apanhado, algemado e aprisionado! "
Como j fizera uma dzia de vezes anteriormente, perguntou-se por que no
tivera a coragem de ignorar a ordem da rainha e permanecer solteiro.
Mas estava em jogo sua posio de estribeiro-mor.
Havia melhorado tanto as cavalarias reais do palcio de Buckingham, a
ponto de deix-las irreconhecveis. Entreg-las aos cuidados de outro
seria o mesmo que descuidar de seus prprios cavalos de corrida.
o
O prncipe consorte no se interessava por cavalos e quando o duque
assumiu seu cargo cuidou da substituio imediata, tanto em Londres como
em Windsor, dos animais velhos por novos.
O trabalho que o duque de Kerncliffe j havia realizado como estribeiro-
mor merecera elogios dos mais exigentes cavalheiros que, como ele, eram
grandes conhecedores e entusiastas daquele que era conhecido como o
"esporte de reis".
Considerando tudo isto, o duque s pde dizer a si mesmo que "se Paris
valia uma missa", os cavalos valiam uma esposa.
Deixando de lado os jornais, subiu a escada sem pressa.
Ele havia escolhido aquela casa para passar a noite de npcias por
consider-la uma jia perfeita em cada detalhe. S gostaria de se sentir
um pouco mais entusiasmado pela noiva.
77
Tudo seria diferente se estivesse ali com uma mulher que tivesse
escolhido de livre e espontnea vontade e com quem tivesse afinidade. No
importava que no fossem casados.
Ah, ento sentiria arder dentro de si o fogo do desejo e isto bastaria
para tornarem desvairados os momentos que estivessem juntos.
Seria uma experincia inteiramente diversa ensinar a uma jovem pura e
intocada as delcias do amor ardente e apaixonado. Embora jamais tivesse
feito isso antes, sentiu que no era o que queria naquela noite.
Ento, como se fosse um soldado, chamou a si prprio  ateno. Caminhou
pelo corredor convencendo-se de que era seu dever agir como o noivo que
era, em sua noite de npcias. Estava casado, tinha de dar o primeiro
passo para concretizar o sonho de todos que ansiavam pelo herdeiro do
ducado.
 frente do quarto que a noiva ocupava, veio-lhe  mente que o aposento
havia sido decorado para tornar-se um ninho de amor. Mas jamais previra
que fazer amor envolveria uma esposa.
Imediatamente teve mpetos de seguir em frente, indo direto para o
prprio quarto. Ento, como se visse escrita em letras a palavra "Dever",
bateu de leve e girou a maaneta.
A porta estava trancada a chave.
78

CAPTULO V

O duque e a duquesa de Kerncliffe atravessaram o canal na manh seguinte.
Viajaram no iate at Boulogne, onde uma carruagem puxada por quatro
cavalos j os esperava.
Estava um dia alegre e ensolarado, perfeito para a agradvel viagem de
quase uma hora at o castelo de um dos amigos do duque, onde os recm-
casados passariam a segunda noite de sua lua-de-mel.
Numa voz fria, o duque explicou  esposa que costumava hospedar-se nesse
castelo quando vinha  Frana. Mas, no momento, seu dono se encontrava
em Paris.
Alm dessa explicao pouco foi dito pelos dois. Na travessia do canal
mal se comunicaram.
Areta questionou-se se o duque teria ficado muito enraivecido por ter
encontrado a porta do quarto trancada. Ouvira seus passos no corredor, o
girar da maaneta e em seguida os passos novamente, desta vez se
afastando.
No ignorando que o duque se ressentia daquele casamento indesejado,
concluiu que para ele foi um alvio no ver a noiva naquela primeira
noite.
No era pequena a apreenso de Areta diante do que iria acontecer quando
se visse obrigada a confessar que no era lady Millicent.
Entretanto, o momento no era de preocupaes. O dia maravilhoso e a
paisagem encantadora eram motivos suficientes para ench-la de
felicidade.
A carruagem seguia por longas estradas marginadas de rvores, o castelo
no tardou a surgir  vista.
Aquele sol primaveril no podia estar mais lindo, tendo  sua trente um
bem cuidado jardim, cujo centro uma fonte arremessava para o alto seus
jatos de gua danantes.
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Admirando a beleza de tudo, Areta disse a si mesma que no poderia haver
cenrio mais perfeito para um casal em lua-demel. Infelizmente, no que
dizia respeito ao duque, poderia assegurar que no via romantismo em
nada.
Ele mal lhe dirigira um olhar desde que haviam deixado o iate.
No porto, enquanto a bagagem estava sendo descarregada para seguir 
frente deles, foi-lhes servido um almoo leve no iate.
Os criados do castelo, todos muito bem treinados, receberam o duque e a
esposa. Esta foi levada para um quarto majestoso para trocar a roupa da
viagem.
Ao descer para reunir-se ao duque, pensava que havia chegado o momento de
revelar-lhe toda a verdade. Porm, ao chegar ao salo no o viu.
- J preparamos o ch bem  inglesa, madame. Espero que o aprecie -
comunicou-lhe o mordomo, um senhor j idoso.
Areta sorriu para ele, agradecida.
- Monsieur l Duc - ele prosseguiu - pediu-me para informar  madame que
foi s cocheiras inspecionar alguns cavalos nos quais est interessado.
com um pequeno suspiro, Areta pensou que gostaria muito de acompanhar o
duque at as cocheiras. J havia notado inmeros cavalos nos campos
quando se aproximavam do castelo, o que a fez concluir que o amigo do
duque devia ser criador de puros-sangues.
Isto tambm explicava o fato de o duque ficar habitualmente hospedado no
castelo sempre que vinha  Frana. Talvez agora estivesse interessado em
comprar cavalos para suas cocheiras da Frana ou mesmo da Inglaterra.
No querendo desapontar o chefque havia preparado o ch, Areta serviu-se
de uma xcara e comeu um bolinho.
- O tempo passou e no viu sinal do duque, ento pediu os jornais e subiu
para seu quarto. Havia tanta coisa que queria saber sobre a Frana que
mergulhou na leitura com grande interesse. Ao fazer uma pausa viu,
surpresa, que j era hora de preparar-se para o jantar.
William e Millicent certamente j estavam em segurana e Areta decidiu
que teria de enfrentar o obstculo mais difcil de todos. Seu plano j
estava pronto para ser executado.
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Em primeiro lugar, quando no havia ningum no quarto, tirou a peruca
loira e enrolou-a num papel, guardando-a no fundo do ba que se achava no
quarto de vestir, ao lado do quarto de dormir. Em seguida, escovou seus
cabelos at deix-los brilhantes, como se tivessem pequenas centelhas.
Quando a criada que a servia chegou ao quarto, pediu-lhe para tirar do
ba o vestido mais lindo que havia comprado em Londres.
Este, seguindo a moda mais atual de Paris, era puxado para trs e no
tinha por baixo da saia a incmoda crinolina feita com osso de baleia.
Madame Bertin, feliz em confeccionar um modelo essencialmente francs,
deixara o vestido primoroso. A blusa assentava como uma luva e a cintura
de Areta pareceu ainda mais reduzida.
O decote era bem mais baixo do que o de qualquer outro vestido que Areta
j tivera e os ombros ficavam quase descobertos, tendo apenas um pouco do
tecido emoldurando-os. As mangas curtas e bufantes eram enfeitadas com
pequenas camlias, iguais s que formavam a delicada grinalda para a
cabea.
Apesar de ser um vestido branco, de forma alguma lembrava o de uma
debutante.
Ao vesti-lo, Areta pensou se o duque iria notar que seus cabelos no eram
mais to loiros como os que realavam a beleza de Millicent.
Mantendo a cabea bem erguida desceu a escada com vagar e dirigiu-se para
o salo. Assustada como estava, sentia como se mil borboletas voassem
dentro dela.
Em sua altivez disse a si mesma com desdm que o duque merecia o choque
que iria receber.
Sem dvida aquela seria a primeira vez que ele encontraria a hostilidade
de uma mulher.
Sua Alteza j se encontrava no salo e ergueu-se assim que a viu. Sem
olhar para ela com ateno, entregou-lhe uma taa de champanhe.
- Acredito que voc esteja menos cansada hoje - ele observou.
- Realmente... sinto-me muito melhor.
No houve oportunidade de conversarem porque o jantar foi
81
anunciado. Ambos caminharam pelo corredor iluminado, em direo  sala de
jantar, pequena, porm lindamente decorada. Aquele clima aconchegante fez
Areta deduzir que o duque havia preferido jantar ali e no no salo de
banquetes por ser a sala bem mais ntima. O candelabro de ouro sobre a
mesa, a iluminao, enfim tudo no cmodo criava uma atmosfera suave e
romntica.
Sentados  mesa, o duque iniciou a conversa:
- Espero que esteja preparada para apreciar o que sempre considerei os
pratos mais requintados e saborosos da Frana. O modo como ele falou
atestava que estava convencido que uma pessoa como ela no poderia
saborear iguarias raras.
Areta resistiu  tentao de dizer que no s conhecia bem a cozinha
francesa, como at sabia preparar com perfeio qualquer prato fino.
Sua me sempre insistia para a filha aprender principalmente os pratos
prediletos de lorde John. O chefque tinham em Paris era um renomado
francs, mestre em sua arte.
Durante o jantar Areta apreciou cada prato que lhe foi oferecido. O duque
parecia ter pouco a dizer e ela tomou a iniciativa de fazer alguns
comentrios. Nada melhor do que falar sobre cavalos de corrida.
- Soube que voc ter dois cavalos correndo em Longchamp. Acredita que
podero vencer L Vainqueur?
O duque olhou-a, surpreso.
- O que sabe sobre L Vainqueur? Areta sorriu.
- Sei que  o mais sensacional cavalo de corrida da Frana, portanto,
ser a maior glria se um dos seus puros-sangues venc-lo!
Mais surpreso ainda, o duque respondeu:
-  o que mais desejo e creio que Mercury tem muita chance, desde que o
tempo esteja bom.
- Sei que L Vainqueur  um animal extraordinrio.
Areta disse apenas isso por no querer naquele momento contar ao duque
que ela prpria j havia visto L Vainqueur em corridas. Sabia que era um
animal imbatvel.
- Mercury j venceu muitas corridas clssicas? - ela perguntou.
82
Mal fez essa pergunta arrependeu-se de no ter lido com mais ateno as
sees de esportes nos jornais, quando estava no castelo. Em geral,
sentindo-se sempre to infeliz, preferia ler antes de se deitar livros
escritos em francs que sempre ia buscar na biblioteca.
Ler em francs parecia trazer-lhe de volta um pouco da felicidade que
conhecera na Frana e afastava a tristeza que a envolvera desde sua vinda
para a Inglaterra.
O duque notou o interesse dela, mas o julgou inteiramente superficial,
por isso falou sobre o pedigree de Mercury e sobre suas vitrias mais
importantes.
- Certamente ser para voc o maior triunfo v-lo passar pelo disco de
chegada  frente de L Vainqueur. No aposta nos seus cavalos?
- No, nunca!
Novamente Areta se conteve para no revelar que seu pai sempre lhe dizia
que de fato era um erro fazer isso.
Deixando de lado a corrida de Longchamp, pediu ao duque que lhe contasse
sobre os cavalos que fora ver na cocheira do castelo do amigo.
Dessa forma, durante o tempo que durou o jantar acabaram falando muito
mais do que tudo que haviam conversado desde o casamento.
Quando foram para o salo Areta sentiu a mo gelar e o corao batendo
to lentamente quanto um carrilho dando as horas. O duque seguia ao seu
lado, de acordo com o costume francs.
Os criados serviram bebidas no salo. O duque aceitou um copo de brandy,
mas Areta no quis nada. J bastavam os vinhos servidos durante o jantar,
embora tivesse bebido bem pouco.
Os criados deixaram-nos a ss e ela disse:
- Tenho algo a lhe dizer... e creio que o deixar muito aborrecido. Mas
j  hora de saber a verdade...
O duque arqueou as sobrancelhas.
- A verdade? Sobre o qu?
- Pensei que fosse notar alguma coisa diferente em mim... esta noite.
83
O duque olhou para ela atentamente- Ocorreu-lhe que era a primeira vez
que fazia isso desde o dia das bodas. No notou nada diferente e achou
que ela s poderia estar fazendo alguma brincadeira com ele.
- Confesso que no fui atencioso no tendo elogiado seu vestido muito
elegante e na ltima moda. E naturalmente voc  linda.
- Minha prima Millicent tambm-  linda, no? O duque mostrou-se confuso.
- Sua... prima Millicent? No entendo... - Achei que seria bastante
observador para notar que... meus cabelos so diferentes dos da moa de
quem... esteve noivo. Areta respirou fundo. - Ns somos muito parecidas,
mas h algumas diferenas.
Parecendo no acreditar no que estava ouvindo, o duque falou:
- Pode me considerar muito obtuso, mas confesso que o que est dizendo
foge  minha compreenso.
- Ento vou falar mais... claramente. No sou Millicent Hurst. Sou sua
prima Areta!
- No...  Millicent Hurst? - O duque repetiu devagar, sentou-se muito
ereto em sua cadeira deixou seu copo de brandy sobre a mesinha. - Do que
est falando? O que  afinal tudo isto?
- Millicent est apaixonada por lorde Winterton e ele tambm  louco por
ela. Eles se casaram. ontem. Eu tomei o lugar dela na igreja e agora...
sou sua esposa.
O duque permaneceu em silncio, mas era visvel a fria em seus olhos.
- Quem mais sabe disto? - ele perguntou asperamente.
- S eu, Millicent e... claro, lorde Winterton.
- Est dizendo que o duque no tem conhecimento de nada?
- Claro que no! Tio Arthur estava determinado a ver sua filha tornar-
se... uma duquesa. Seu pedido de casamento deixouo to excitado que at
parecia que ele... era a noiva!
Decididamente o duque no achou a menor graa e formou-se uma ruga
profunda em sua testa.
- Como voc ousou fazer uma coisa dessas? Como teve a coragem de tomar o
lugar de sua prima? Certamente algum
SA
ve ter descoberto alguma coisa. Impossvel ningum desconfiar de nada!
- Nem voc... desconfiou. Usei uma peruca da cor dos cabelos de
Millicent. Por coincidncia meu segundo nome  Alelaide, como o de minha
prima. Portanto no h como alegar que... o casamento no foi legal.
- Voc parece ter pensado em tudo! - ele observou furioso. - Mas, e eu?
- Voc tem... uma esposa, exatamente o que a rainha desejava - Areta
replicou, evidenciando o lado prtico da questo.
- com os diabos! Como sabe disso? - o duque interpelou-a.
- Ouvi tio Arthur comentar que sabia qual era a razo de um casamento...
to apressado. S precisou confirmar suas suspeitas com sua irm, cuja
criada particular gosta de comentar tudo o que se passa no castelo de
Windsor.
O duque ergueu-se. Caminhou at a lareira e ficou olhando o fogo
crepitante. Depois exclamou, cheio de indignao:
- Isto  um ultraje! No posso acreditar que esteja acontecendo
comigo!
- Mas est! E a menos que deseja causar um grande escndalo, que ser
anunciado em todos os jornais, s lhe posso sugerir que... aceite a
situao.
-  s o que voc quer! - ele replicou com ironia. - Voc queria se
tornar uma duquesa e teve sucesso!
- Acontece que foi este o nico meio que encontrei de...
escapar.
- Escapar? De qu?
- Da verdadeira priso em que titio me mantinha. Eu no
tinha permisso de ir a festas nem de conhecer pessoas. Tio ArBiur era meu
tutor e me disse que eu... nunca teria sua permisso para me casar.
O duque a fitava com ar de incredulidade.
- Por que ele lhe dizia isso? Por que nunca poderia se casar?
- Sou filha de lorde John Hurst e de lady Langley. Eles fugiram juntos.
A expresso do duque revelou que ele se lembrava do escndalo causado na
poca. Todavia Areta calculou que ele fosse ainda bem jovem.
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- Lorde Langley afinal conseguiu o divrcio e meus pais se casaram. - Ela
respirou fundo. - Mas, infelizmente, eu nasci um ms antes desse
casamento.
Areta fez uma pausa e notou que a revelao deixara o duque incapaz de
falar. Mas precisava contar-lhe tudo.
- Como v... sou o que meu tio jamais deixou de me lembrar... uma filha
ilegtima! Eu no podia remediar esse fato e s pensei em fugir, assim
que tivesse a chance.
O silncio que se seguiu foi longo e pesado. Depois o duque perguntou:
- Quem mais sabe disso?
- Meus tios e... tambm contei a Millicent.
- Ningum mais?
Sabendo o que se passava na cabea do duque, ela observou:
- Se houver muitos comentrios sobre o seu casamento com a noiva
errada... o que acabei de lhe dizer tambm ser do conhecimento de todos.
-  inacreditvel que isto esteja mesmo acontecendo. Indo at a mesa onde
deixara seu brandy, tomou boa parte
da bebida e colocou o copo de volta ao mesmo lugar.
- Como no desejo ofend-la e no estou em condies de controlar meus
sentimentos, peo-lhe que me deixe a ss. Tenho de organizar meus
pensamentos e decidir o que fazer.
-  a atitude mais sensata. Naturalmente, devo pedir desculpas por deixar
Vossa Alteza to perturbado. - Areta levantou-se. - Ao mesmo tempo, no
posso imaginar que qualquer mocinha, a menos que fosse doente mental,
teria prazer em se casar com um homem, sabendo que a simples ideia de t-
la como esposa o deixava furioso.
Mais uma vez o duque no escondeu sua surpresa.
- Est dizendo que... era assim to bvio?
- Para mim, sim! E Millicent, apaixonada por outro, sentiu um medo
terrvel de que se algo desse errado, ver-se-ia obrigada a tornar-se sua
esposa.
Nunca havia passado pela mente do duque que mulher alguma jamais pudesse
sentir outra coisa seno o maior orgulho de se tornar sua esposa.
- No fazia ideia que uma mocinha pudesse se sentir assim.
- As mulheres, sejam elas jovens ou mais velhas, tm sensibilidade.
Qualquer uma teria percebido que voc no a amava e que a escolhera para
esposa, no por ela, mas pensando somente em si prprio.
reta caminhou at a porta e antes de sair, voltou-se.
- No ganharemos nada continuando esta discusso, Alteza. Talvez amanh,
se desejar prosseguir a viagem at Paris, encontrar soluo para o nosso
futuro.
Caminhando com vagar e muita dignidade, ela deixou o salo. S quando
chegou  escada subiu-a apressada. Entrando no quarto, trancou a porta e
atirou-se na cama.
Havia conseguido! Dissera toda a verdade ao duque e, por milagre,
sobrevivera. Sabia o quanto o deixara furioso. Mas sua fria seria ainda
maior quando ele analisasse a situao friamente.
- "Ele no poder fazer nada!", Areta disse em voz alta. Ao mesmo tempo
foi assaltada por uma dvida: ser que haveria algo que pudesse ser
feito?
Viajando com Areta no trem para Paris, o duque abriu o jornal. No
partiram muito cedo.
Areta tomou o caf da manh em seu quarto e, quando desceu, um dos
criados a informou que a carruagem j se achava  porta para conduzi-los
at a estao.
O chefe da estao j os esperava para acompanh-los at o vago
particular onde Suas Altezas viajariam.
Toda a bagagem fora colocada no compartimento prprio, bem como o grande
cesto contendo o almoo.
Durante a viagem de carruagem at a estao o duque no havia dirigido
uma palavra a Areta que, analisando-o discretamente, notou-lhe o
semblante srio, o queixo muito quadrado e os lbios apertados.
Tudo indicava que ele havia passado a noite em claro.
Quanto a ela, no pegara no sono imediatamente, e quando conseguiu
adormecer teve um pesadelo que a fez acordar com um grito.
Para a viagem vestira um traje diferente do que usara no dia anterior.
Vestira-se com apuro, embora soubesse que o duque
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s iria olhar para ela com uma expresso de fria.
Uma coisa tranquilizava Areta: eles estavam indo para Paris. Pelo menos
no precisava recear pela segurana de William e Millicent.
Uma hora aps a partida o trem parou e os passageiros desceram para o
almoo que poderia ser feito no restaurante da estao. O valete do duque
foi buscar o cesto e serviu-lhes pat, galinha  Janette e diversos tipos
de carnes frias, delcias que s poderiam ter sido preparadas por um chef
francs.
O soturno silncio do duque foi deixando Areta inquieta e ela decidiu
tomar um pouco de champanhe para ganhar nimo.
Quando o trem partiu novamente o duque voltou  leitura dos jornais, mas
Areta percebeu que ele raramente virava uma pgina.
Sem dvida Sua Alteza pensava em seu futuro e no que iria fazer.
Em Paris tambm j havia uma carruagem esperando-os  frente da estao.
S ao chegarem  rue duFaubourg St. Honor o duque comunicou numa voz
glacial e indiferente:
- A casa onde ficaremos, localizada perto da embaixada inglesa, pertence
a um amigo. J a aluguei em diversas ocasies. Espero que a considere
confortvel.
- Tenho certeza que sim.
A carruagem parou diante de uma casa muito grande e imponente. Vrios
criados os esperavam no hall.
Como j imaginava, Areta foi conduzida a um quarto luxuoso, mobiliado com
extremo bom gosto. S para atend-la havia uma criada particular e duas
outras criadas.
As trs j se achavam atarefadas desfazendo a bagagem e se surpreenderam
ao receberem ordem de no abrir os bas maiores. Mas bem-educadas que
eram no discutiram e se limitaram a pendurar nos armrios os vestidos do
ba menor.
Areta ordenou que lhe preparassem um banho, o que no ignorava, era
motivo de alvoroo na Frana. Porm, foi prontamente atendida.
"Pelo menos me sentirei mais confortvel", disse a si mesma, mas a
afirmaao no lhe serviu de consolo.
Terminado o banho reconfortante, Areta enxugava-se quando ouviu uma
batida  porta e a criada foi atender. Esta voltou
e transmitiu o recado:
- Sua Senhoria apresenta suas desculpas, madame, mas tem um compromisso
importante e no voltar para o jantar.
Era o que Areta j esperava e respondeu simplesmente:
- Compreendo.
- Madame descer e vai jantar sozinha?
- No - Areta sacudiu a cabea. - vou sair e encontrarme com uma pessoa
amiga. Mas no diga nada a ningum at que Sua Senhoria tenha sado.
Ela comeou a arrumar-se sem pressa. Usando o vestido mais espetacular
que possua, esperou a criada particular pentear-lhe os cabelos de acordo
com a moda. Por ltimo colocou na cabea um arranjo enfeitado com penas
de guia-pescadora que lhe conferiu um ar sofisticado e muito chique.
Todavia, um toque bem leve de preto, emprestado pelas plumas sobre os
ombros, deu nfase  sua juventude. Notando isto, Marie, a criada,
sugeriu:
- Madame precisa de um brilho nos lbios.
A me de Areta e todas as ladies em Paris usavam p-de-arroz e brilho nos
lbios. Sabendo que isso era costume na Frana, madame respondeu:
- vou providenciar isso amanh.
- Madame la Confesse tem um pouco em seus aposentos Marie lembrou.
Sem esperar a resposta, a criada foi buscar uma caixinha de p e brilho
para os lbios, cor-de-rosa bem suave.
Mesmo com a pintura bem leve, Areta ficou parecendo um pouco mais velha e
muito elegante.
com toda discrio, Marie descobriu a que horas o duque pretendia sair e
informou Areta. Esta teve certeza de que ele iria, sem dvida, a algum
lugar onde pudesse divertir-se, pois nada pior do que ficar sentado
pensando na situao embaraosa em que se encontrava.
Pondo uma larga estola de veludo sobre os ombros, Areta pediu a Marie que
fosse dizer ao mordomo para providenciar uma carruagem.
- No vai sair sozinha, no, madame? - Marie perguntou.
- No, Marie. Gostaria que voc me acompanhasse.
Apressada, a criada foi pegar seu chapu e um casaco.
Enquanto esperava, Areta lembrou-se das jias de sua me e foi escolher o
que ficaria bem com sua roupa. Por fim optou por um conjunto formado por
um lindo colar, um par de brincos e braceletes que colocou sobre as
longas luvas brancas.
Marie voltou quase sem ar porque havia subido e descido as escadas
correndo.
O mordomo j se achava  porta e avisou que a carruagem as esperava l
fora.
Ao sair, Areta viu que a carruagem no era daquelas que se encontravam
facilmente nas ruas. Sem dvida viera de uma das cocheiras que alugavam
carruagens confortveis e elegantes. Aquela era puxada por dois cavalos.
Ela deu o endereo ao mordomo que comunicou ao cocheiro aonde Sua Alteza
desejava ir.
A carruagem partiu e Areta rezou para encontrar em casa o cavalheiro que
desejava ver. Caso no o encontrasse, teria de tentar v-lo no dia
seguinte.
Os cavalos pararam diante de uma das mais importantes casas dos Champs-
Elyses. O lacaio que estava na boleia ao lado do cocheiro desceu para
tocar a sineta. Quando a porta se abriu, Areta desceu da carruagem.
- Espere aqui, Marie - recomendou. Entrando na casa, um velho mordomo a
recebeu.
- Monsieur l marquis est em casa? - ela perguntou.
- Receio dizer-lhe madame, mas monsieur no me avisou que esperava
visita.
Areta sorriu.
- No se lembra mais de mim, Blanc?
O mordomo fitou-a, ento exclamou quase nun grito:
- M'mselle Areta!
- Estou de volta e  maravilhoso ver Paris outra vez!
- Monsieur ficar encantado! Ele se encontra no salo. Blanc virou-se
para ir ao salo, mas Areta disse:
- Um momento, Blanc. Anuncie-me como a duquesa de Kerncliffe.
O velho mordomo sorriu e abriu a porta para anunciar:
- Madame Ia Duchesse de Kerncliffe, monsieur!
Os dois cavalheiros que se encontravam conversando ao fundo do salo e
seguravam cada um sua taa de champanhe, levantaram-se e olharam para
ela, surpresos.
Areta aproximou-se e o marqus exclamou:
- No  possvel... mas  mesmo Areta!
Num mpeto Areta passou os braos ao redor do pescoo do marqus.
- Tio Fabiam, tive tanto medo que pudesse ter-se esquecido de mim!
- Minha querida pequena, como eu poderia fazer uma coisa dessas? Ainda h
bem poucos dias Pierre e eu estivemos falando sobre voc.
Areta beijou afetuosamente o rosto do outro cavalheiro que lhe perguntou,
parecendo admirado.
- Mas voc est casada e com o duque de Kerncliffe?
- Sim... casei-me.  por isso que preciso da ajuda de vocs dois.
-  claro! - acudiu o marqus. - Voc sabe, querida pequena, que farei
com o maior prazer o que quiser que eu faa.
- Bem, em primeiro lugar, poderia me oferecer o jantar desta noite?
- Ser um prazer - o marqus afirmou. Virando-se para o mordomo, disse: -
Dispense a carruagem e diga ao cocheiro que leve minha criada Marie para
casa.
Enquanto o marqus dava a ordem, o visconde de Monviel serviu uma taa de
champanhe a Areta.
Areta sentou-se entre os dois cavalheiros e ficou algum tempo fitando-os
cheia de ternura.
O marqus de Laroque, um dos mais distintos aristocratas da Frana, era
um vivo de cinquenta anos e no tinha inteno de se casar novamente,
embora se visse assediado por todas as mais importantes anfitris de
Paris.
O marqus prezava sua liberdade e adorava a vida de luxo, extravagncia e
divertimentos que tornavam Paris to famosa. Sendo um homem muito
inteligente, era continuamente solicitado pelo imperador, por estadistas
e polticos que o consultavam sobre questes oficiais.
Muitas vezes os conselhos do marqus no eram seguidos, todavia
91
os mesmos sempre se provavam sensatos e corretos.
O visconde de Monviel, da mesma idade do marqus era seu maior amigo. Ele
preferia a vida alegre e ruidosa de Paris ao sossego de seu castelo no
vale do Loire, onde podia levar uma vida mais aristocrtica, porm muito
mais enfadonha.
Esses dois aristocratas haviam sido grandes amigos da me de Areta e eram
figuras indispensveis nas reunies realizadas no seu clebre salo.
Conheciam Areta desde criana e sempre a enchiam de mimos. Quando
mocinha, Areta recebeu deles os primeiros elogios. com eles ia a teatros
considerados prprios para jovens de sua idade, permitiam que ela
montasse seus cavalos e acompanhavam-na quando cavalgava no Bois.
Agora via estampada a curiosidade no semblante dos amigos.
-  mesmo verdade que se casou com o duque de Kerncliffe? - o marqus
indagou. - Costumo encontr-lo com frequncia nas corridas e sempre soube
que ele era um solteiro inveterado.
Areta sorriu.
- Era. Mas a rainha Victoria acabou se convencendo de que cavalheiros
altos, morenos, belos, simpticos e solteiros perturbavam a paz do
castelo de Windsor.
Os cavalheiros inclinaram a cabea para trs numa risada sonora.
- E assim ele se casou com voc, pequena Areta! - O visconde concluiu.
- Ele se casou - ela comeou a explicar devagar - com uma jovem debutante
que nem conhecia. Sei que ele espera ficar morrendo de tdio em pouco
tempo.
O marqus arregalou os olhos. H quanto tempo esto casados?
- H dois dias.
- E onde est seu marido esta noite?
Areta fez com as mos um gesto tipicamente francs.
-  o que gostaria que vocs me dissessem. Por isso vou explicar o que
desejo que faam, tio Fabian.
- O que ?
- Quero que vocs me transformem num sucesso.
Os dois aristocratas fitaram-na.
- Um sucesso? Areta respirou fundo.
- Como vocs sabem, fiquei de luto durante um ano, no vi ningum, no
conversei com ningum a no ser meus tios que no gostam de mim e me
desprezam. At minha prima, de quem gosto muito, por estar apaixonada, s
pensava no namorado que agora  seu marido.
- Pobre pequena Areta! - exclamou o visconde.
- Vivi como prisioneira no frio e triste castelo de tio Arthur. S vocs
dois podem imaginar como fiquei infeliz sem meus pais e sem a joie de
vivre.
O marqus estendeu a mo.
- Minha querida pequena Areta. Vamos tentar faz-la feliz. Sempre me
lembro da contagiante alegria de seus pais. Ningum ficava triste perto
deles.
-  disso que... sinto tanta falta. - Areta suspirou. Notando o tremor na
voz dela, o marqus beijou-lhe a mo.
- Tudo acabou. Mas ns estamos aqui. Pelo que entendi, o que voc quer
realmente  que ns ensinemos a seu marido a primeira lio: ser um
bom... marido.
O visconde riu.
- Cheguei a pensar, Fabian, que voc ia dizer "um bom amante", mas por
tudo o que se diz do duque, isto seria perfeitamente desnecessrio!
- Claro. Mas ser um bom marido  coisa bem diferente! Conversando em
francs e notando o humor dos dois, Areta
sentiu-se reanimada. Era como se voltasse para casa, voltasse a encontrar
calor humano e voltasse a viver.
- Bem, o que podemos fazer? - O visconde perguntou.
- Vamos jantar no Caf Anglais e no ficarei nada surpreso se
encontrarmos l o duque de Kerncliffe.
O olhar que os dois amigos trocaram disse Areta que eles estavam pensando
sobre uma certa pessoa que o duque costumava ver em Paris.
- O Caf Anglais! - ela exclamou. - Sempre tive tanta vontade de ir l,
mas vocs sabem que meus pais no permitiam, alegando que eu precisava
crescer mais um pouco. Bem agora
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j estou crescida! E,  claro, jamais poderia encontrar acompanhantes
mais distintos! O marqus ergueu-se.
- Vamos, Pierre. Vamos fazer uma entrada sensacional! Sei que todos
perguntaro quem poderia ser a beldade que tivemos a felicidade de
encontrar.
Areta disse, depois de um sorriso:
- Acham que estou bem? Sabe que s quero a verdade, tio Fabian!
Ele a olhou detidamente com os olhos de um entendedor.
- Acho que voc est... - o marqus comeou - extremamente linda, chique
como s as francesas sabem ser, e muito, muito desejvel!
Seu tom de voz revelava sinceridade. Areta deu um pequeno grito de
alegria e abraou-o.
- Oh, carssimo tio Fabian, s voc para me dizer essas coisas para me
dar a confiana de que preciso desesperadamente.
- Eu ainda no disse o que eu penso - Pierre observou. Areta fitou-o.
- Voc  to linda como sua me e tem o encanto irresistvel e a
inteligncia de seu pai!
- Obrigada! Oh, obrigada!
Ela beijou o visconde e todos se encaminharam para a porta. Antes de
sarem Areta disse:
- Poderia alguma mulher ter honra maior do que sair para jantar com dois
cavalheiros to distintos? Creio que no ficaria bem eu continuar me
dirigindo a dois belos e elegantes aristocratas como eu fazia quando
criana.
- Naturalmente! - O marqus concordou. - Sou Fabian, e no sou velho
demais para colocar meu corao aos seus ps. E o corao de Pierre j
est ali h muito tempo!
Os trs foram rindo para o hall e Blanc j os esperava para colocar a
estola nos ombros de Areta.
Na carruagem muito confortvel do marqus, eles foram conversando e rindo
at o Caf Anglais.
Ao entrar no salo, Areta foi dominada por grande entusiasmo. Ia jantar
no mais elegante e mais importante restaurante de toda Paris. J sabia
como era o ambiente do Caf porque
seus pais costumavam descrev-lo para a filha.
Vieram-lhe  mente nomes de pessoas importantes, inclusive de membros da
realeza, que seus pais haviam conhecido ali, como o do prncipe de
Orange, o do russo M. Kougueleff que era multimilionrio e do bon vivant,
frequentador dos bulevares parisienses, Marcelin, fundador do La Vie
Parisienne.
Ela no ignorava que a comida servida no Caf Anglais superava a de
qualquer outro restaurante da cidade. Duglere, o cef de cuisine recebera
de Rossini o cognome de o "o Mozart da cozinha francesa".
- A caracterstica do Caf Anglais - lorde John havia dito
-  sua adega que contm duzentas mil garrafas.
No salo principal Areta viu lindas mulheres luxuosamente vestidas, todas
elas empoadas e pintadas. Invariavelmente se faziam acompanhar dos mais
belos e mais distintos homens da Frana.
O maitre d'hotel conhecia bem seu servio. Pessoas de pouca importncia
poderia ou ficar a um canto onde mal seriam vistas ou nem ser acomodadas
no salo principal.
O marqus e o visconde tinham certeza de que se o duque de Kerncliffe
estivesse procurando divertir-se, indiscutivelmente viria ao Caf
Anglais.
La Paiva, com quem o duque sempre saa no passado, todas as noites
ocupava sempre a sua mesa. Ao correr os olhos pelo salo o marqus de
Laroque viu, como j esperava, La Paiva recoberta de jias, as quais,
segundo diziam, estavam avaliadas em dois milhes de francos.
Quatro homens sentados  sua mesa divertiam-na. Um deles, sentado 
direita da linda mulher, era o duque de Kerncliffe.
A mesa reservada para o marqus ficava bem prxima  de La Paiva. Os trs
se dirigiram para l, enquanto o marqus conjecturava o que poderiam
estar dizendo os quatro cavalheiros que distraam a mais famosa cortes
de Paris.
Foi ela quem viu primeiro os recm-chegados.
- Oh, l est o marqus de Laroque! Queria muito falar com ele e sabia
que o veria aqui esta noite.
- O marqus  um homem interessante e divertido - observou um dos
cavalheiros. - Mas quem  a mulher lindssima
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  que est com ele? Nunca a vi antes.
O duque interrompeu a conversa sobre corridas que mantinha com o outro
cavalheiro e olhou para os recm-chegados, num gesto automtico. Afinal,
conhecia e admirava o marqus. O mesmo podia dizer do visconde de
Monviel, um grande conhecedor de cavalos, quadros e mulheres.
Seu olhar pousou naquela mulher jovem, achando que as plumas pretas
contrastando com seus cabelos dourados lhe conferiam muita elegncia.
Aquele rosto lhe pareceu familiar e subitamente sua expresso
transformou-se. Havia perplexidade em seu olhar.
- Quem  ela? - La Paiva perguntou num tom um tanto petulante.
O marqus e seus dois acompanhantes j estavam bem perto da mesa de La
Paiva. O duque sentiu que mal podia respirar; parecia ter-se transformado
numa esttua de pedra.
Era inacreditvel! Via-se  frente de sua prpria esposa!
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 CAPTULO VI

Areta caminhou pelo restaurante consciente de atrair para si todos os
olhares.
Ao sentar-se  mesa viu o duque e no mesmo instante soube quem era a
mulher ao lado dele. No poderia ter vivido em Paris sem ter ouvido falar
em La Paiva, a mais famosa e comentada cortes de Paris.
Nas reunies oferecidas pelos pais os homens continuamente se referiam a
La Paiva, mencionavam ou suas jias estonteantes ou a fabulosa casa que
possua nos Champs-Elyses, mandada construir pelo diplomata prussiano,
Henckel von Donnersmarck, e que havia maravilhado Paris.
A escadaria com degraus e o corrimo todos feitos inteiramente de nix e
o banheiro em mrmore e nix eram dignos de uma sultana das Mil e Uma
Noites. Os relgios que havia pela casa eram montados em bases de pedras
preciosas.
Areta costumava ouvir fascinada o que diziam sobre La Paiva. E agora a
via em pessoa, sentada ao lado do duque, seu prprio marido. No podia
negar que tendo aquele rosto sedutor a cortes fosse considerada
irresistvel pelos homens.
Mas no momento Areta precisava preocupar-se apenas consigo mesma. O
marqus e o visconde a elogiavam, dizendo-lhe que no havia no salo
ningum que se comparasse a ela.
Ento o marqus olhou para o duque como se s o tivesse reconhecido
naquele instante e acenou-lhe com a mo.
No havendo outra alternativa, o duque levantou-se vagarosamente.
- com licena - pediu a La Paiva. - Tenhotle falar com o marqus. J
esperava encontr-lo aqui.
- Naturellement, mon cher - La Paiva assentiu. - Onde mais ele poderia
estar?
97
- Veja se descobre quem  a nova beldade que est com ele
- lembrou um dos cavalheiros. - Jamais vi algum to adorvel.
- E aquele colar certamente merece ser admirado - La Paiva observou. -
Gostaria de saber de quem teria sido aquele presente.
Os trs homens riram.
com os olhos escuros de raiva o duque caminhou entre o labirinto de mesas
e alcanou a do marqus. Este estendeu-lhe a mo, dizendo:
-  um grande prazer v-lo em Paris novamente, Kerncliffe! Os mais
sinceros parabns e calorosos votos de felicidade pelo casamento!
O duque ficou um instante paralisado parecendo ter dificuldade em
responder. O marqus continuou:
- H longo tempo venho pedindo ao cu que nos mandasse Areta de volta e
com grande surpresa descobrimos que ela  agora sua esposa!
- Tambm junto meus parabns aos de Fabian - o visconde aparteou. -
Asseguro-lhe que um grande nmero de meus compatriotas ficaro furiosos
quando souberem que, mais uma vez, voc "levou a melhor" e passou 
frente deles.
-  bom v-lo novamente, Monviel - o duque falou. Posso me sentar?
O garom que os servia j trouxera uma cadeira. O duque sentou-se 
esquerda do marqus, de frente para Areta.
Sabendo, naturalmente, que o marido estava perplexo por v-la ali, ela
explicou:
- Estes cavalheiros encantadores so meus amigos h longo tempo.
Apaixonei-me por eles desde que eu era um beb de bero!
O marqus e o visconde riram.
- E ns tambm nos apaixonamos por voc! Nunca se viu uma criana to
adorvel, to linda e com inteligncia to brilhante! Quando voc
desapareceu e foi para a Inglaterra, despedaou-nos o corao!
- Eu tambm me senti... assim - Areta respondeu suavemente.
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Decidindo-se subitamente, o duque perguntou:
- Eu poderia jantar com vocs? No tenho compromisso algum. S vim ao
Caf Anglais esperando rever os velhos amigos.
- Mas  claro! - o marqus concordou. - Teremos o maior prazer!
- Devo primeiro ir desculpar-me - o duque ergueu-se da cadeira. - A lady
que se encontra na outra mesa j me havia convidado para reunir-me a
eles. Mas ela compreender,  claro, que devo ficar com minha esposa.
Ao v-lo afastar-se, Areta pensou que o marido estava se saindo daquela
situao difcil com muita dignidade: s no podia imaginar o que ele
iria dizer a La Paiva.
Antes de o duque voltar dois outros amigos do marqus vieram  mesa dele
e perguntaram se poderiam jantar com ele.
- Compreendo muito bem por que vocs querem jantar em minha companhia
esta noite! - ele riu. - No cabem em si de curiosidade. Querem saber
quem  esta adorvel lady sentada ao meu lado. Permitam-me apresent-los.
Feitas as apresentaes, Areta notou que ambos estavam determinados a
manter uma conversao com ela.
Um dos cavalheiros, o conde Gustave de Soisson, sentou-se ao lado dela,
apesar de o visconde ter tentado impedi-lo. O conde beijou-lhe a mo,
dizendo em seguida:
- Voc  fascinante! S pode ser um anjo sado de um sonho!
- Isso depende,  claro, da pessoa que esteja sonhando! Areta respondeu.
O marqus, que estava ouvindo, riu. O conde disse:
- O que eu desejo, minha linda lady,  que sonhe comigo.
- Ento ficar desapontado, monsieur! - ela replicou. Raramente sonho e
quando isto acontece, tenho pesadelos!
Todos os cavalheiros riram.
O duque voltou e no tardou a perceber, espantado, que as respostas, os
apartes e comentrios espirituosos da esposa mantinham todos  mesa
encantados.
Nunca lhe ocorrera que Areta pudesse falar francs com tanta perfeio e
muitssimo mais fluentemente do que ele. Sempre havia considerado que
falava francs extremamente bem e compreendia
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tudo o que ouvia.
Alm de Areta falar como uma parisiense, tinha o dom de fazer tudo o qu
dissesse soar divertido, excitante e, no raro, provocativo.
O marqus e o visconde no se cansavam de lisonje-la e de encoraj-la,
fazendo-a sentir-se importante e o centro das atenes. Areta, por sua
vez, compreendia que sua representao podia ser considerada excelente.
No lhe passava despercebida a reao do marido. O duque, cada vez mais
perplexo, certamente se indagava o que ela viera fazer ali.
Era inacreditvel como todos os cavalheiros  mesa ouviam-na encantados e
no se cansavam de aplaudi-la. Aquela vivacidade nada tinha a ver com o
tdio que ele havia experimentado quando se encontrava com Millicent ou
com o silncio em que ele e Areta se viram mergulhados durante a viagem
at Paris.
- Areta  como a me, Kerncliffe - o marqus aparteou a certa altura,
durante o jantar. - Imagino que no tenha conhecido lady John Hurst.
- No conheci, mas ouvi falar nela - o duque respondeu secamente.
- Era uma mulher fascinante! Todos em Paris a admiravam, e ser convidado
para uma das suas reunies era a maior ambio de qualquer pessoa de
certa importncia.
- No fazia essa ideia.
- O pai de Areta foi um dos meus maiores amigos. Na Inglaterra ele pode
ter, como vocs costumam dizer, "manchado o nome da famlia" ao fugir com
a esposa de outro homem.
Deliberadamente o marqus fez uma pausa, mas o duque no se manifestou e
ele prosseguiu:
- Mas em Paris o pecado de lorde John foi logo esquecido. Todos o
admiravam como grande desportista e, sem dvida, um grande gentleman.
O duque de Kerncliffe no sabia o que dizer. Veio-lhe  mente tudo o que
Areta lhe contara. O duque de Shiltonhurst jamais perdoara o irmo,
achando que ele havia desgraado o nome da famlia. O tio detestava a
sobrinha rf e a mantivera escondida em seu castelo, no lhe permitindo
frequentar a sociedade e at lhe dissera que nunca iria ter o
consentimento dele para se casar.
E Areta se tornara sua esposa. Ao descobrir isso sentira-se como se lhe
impusessem uma carga sinistra que lhe arruinaria o futuro.
Agora, para seu assombro, o marqus de Laroque, um dos homens mais
importantes da Frana, positivamente o felicitava, deixava bem claro que
ele era o homem mais afortunado por ter conseguido como esposa uma mulher
to linda e inteligente.
Sendo vivido e experiente o duque reconheceu que no podia subestimar a
importncia da amizade do marqus por Areta. Como o lder do Ancien
Regime, ningum iria questionar por um momento que fosse a aprovao dele
a qualquer homem ou mulher que tivesse alguma aspirao social.
Quase o mesmo se poderia dizer do visconde cuja famlia remontava ao
tempo do rei Carlos Magno. Monviel era conhecido por ser capaz de
arrasar, se quisesse, um novo-rico ou qualquer um com posio inferior 
dele, com o estalar de um dedo.
Chegou aos ouvidos do duque o som agradvel do riso cristalino de Areta.
O que ela acabava de dizer obviamente divertiu a mesa toda.
O marqus, em outro aparte, disse ao duque:
- No h necessidade de seu cavalo Mercury vencer L Vainqueur amanh.
Sua esposa conquistar Paris!
O duque olhou para Areta e viu o conde de Soisson beijandolhe a mo
novamente, seus lbios roando-lhe a pele. Pela primeira vez ocorreu-lhe
que, decididamente, no desejava uma esposa que conquistasse Paris. E no
admitia que outros homens, por mais importantes que fossem, ousassem
toc-la.
Terminado o jantar o duque teve de admitir que aqueles foram momentos
agradveis e muito alegres. Embora hesitante, disse ao marqus:
- Creio que  hora de levar minha esposa para casa. Fizemos hoje uma
viagem cansativa e amanh teremos a corrida.
-  uma deciso sensata, Kerncliffe! - o marqus concordou. - Ento os
espero para jantar amanh em minha casa.
101
Tenho certeza de que um grande nmero de pessoas estar esperando com
impacincia ter o prazer de receber Areta.
- Ser maravilhoso! - Areta adiantou-se ao marido. - papai no se
cansava de dizer que a sua cuisine era a melhor de Paris. Ainda tem
Alphonse com voc?
- Sim, certamente. Sei que ele ter o maior prazer de preparar-lhe seus
pratos favoritos.
- Sentia saudade das delcias preparadas por Alphonse. Ah, que saudade,
principalmente quando tinha de comer invariavelmente rosbife e torta de
ma!
Todos riram. O duque ergueu-se, decidido.
Areta beijou o marqus, depois o visconde. Os outros cavalheiros apenas
se inclinaram sobre sua mo que seguravam, numa atitude correta. S o
conde de Soisson mais uma vez beijou-a realmente e disse:
- Passarei a noite pensando em voc, madame e contando as horas para
poder v-la novamente.
Areta apenas sorriu. Virou-se e caminhou  frente do marido pela estreita
passagem entre as mesas.
Apesar de no dar nenhuma demonstrao disso, tinha conscincia de atrair
todos os olhares dos que se achavam no elegante salo.
Uma carruagem esperava pelo duque  frente do Caf. Areta imaginou que a
mesma talvez pertencesse ao amigo que lhe havia emprestado a casa.
O lacaio abriu a porta do elegante veculo, esperou os dois entrarem e
colocou a manta sobre seus joelhos.
Quando os cavalos puseram-se em marcha, o duque observou:
- No sabia que voc tinha morado em Paris com seus pais.
- Mame sempre preferiu o campo e tivemos um castelo numa pequena vila,
ao sul, a uns cinquenta quilmetros de Paris.
- Foi mencionado que sua me possua um salo.
- Mame tinha receio que papai se sentisse infeliz vivendo longe da
Inglaterra. Ento montou em nossa casa de Paris um salo onde eles
recebiam as mais brilhantes personalidades.
O duque ficou algum tempo pensando que a famlia Hurst e a sua prpria
julgara com muita severidade o comportamento de lorde John. Sua esposa,
no entanto, com habilidade e inteligncia,
102
tornara a Frana a segunda ptria de ambos e ali foram
aceitos e admirados.
Foi curto o trajeto at a casa da rue St. Honor.
No hall, a caminho da escadaria, Areta virou-se e perguntou ao duque:
- Irei com voc s corridas amanh? Gostaria imensamente de acompanh-lo.
- Sairemos s onze horas.
- No o deixarei esperando. Boa noite!
Enquanto subia a escada, o duque seguiu-a com os olhos
admirando-lhe o porte, lembrando-se do seu modo de falar e
da sua graa.
Antes de subir e ir para seu prprio quarto, decidiu ficar algum
103
tempo na saleta de estar.
Parecia que o mundo havia virado de cabea para baixo.
Sentia-se incapaz de manter o controle de tudo, como sempre
mantivera no passado.
 Reconhecia que costumava ser autoritrio; melhor dizendo: fe autocrata.
Agora, pela primeira vez, era assaltado por uma insegurana que o
alarmava, no s em relao quela esposa in desejada, como tambm no que
dizia respeito a si mesmo. Nas semanas anteriores, desde que a rainha o
condenara aos grilhes do casamento, deixara-se consumir pela fria,
princi palmente porque no tivera como desobedecer a Sua Majestade.
Tambm no negava que sempre havia encarado uma esposa como um fardo.
Jamais havia pensado que pudesse haver jovens interessantes.
 Tantas mulheres o bajulavam, os parentes, implorando-lhe que se
casasse, repetiam que seria uma honra para qualquer mulher tornar-se
sua esposa. At mesmo um privilgio.
Relutante, sabendo que qualquer jovem que se tornasse sua
esposa no tardaria a deix-lo entediado, acabara aceitando um
noivado e por fim o casamento.
 Pensava, no entanto, que felizmente s iria ver sua aborrecida
esposa quando isto fosse estritamente necessrio. Pelo menos ela
enfeitaria com sua beleza a outra extremidade de sua mesa. Agora tudo
mudara.
104
Tinha como esposa uma jovem rejeitada pela prpria famlia, mas que, ao
mesmo tempo, em Paris, merecia as atenes, a aprovao e a amizade de
aristocratas conhecidos como os mais distintos, mais exigentes e mais
crticos da Frana.
Para dizer o mnimo, o duque estava confuso.
Indo para a cama permaneceu acordado, embora dissesse a si mesmo que s
poderia estar sonhando.
O famoso Hippodrome de Longchamp, inaugurado em 1857, estava lotado para
o Grand Prix.
Essa corrida havia sido ideia do duque de Marny, estadista e desportista,
e a cidade de Paris oferecia o prmio de cem mil francos ao vencedor.
Nove anos depois da instituio desse grande prmio, o Boulevard ds
Capucines ficara todo iluminado para celebrar a vitria de um cavalo
francs em Epsom.
A partir de ento os grandes proprietrios de cavalos de corrida se
dispuseram a, como retaliao, vencer o Grand Prix de Paris.
Na carruagem, a caminho da pista, o duque notou o entusiasmo de Areta e
observou com ironia:
- Imagino que vai dizer que j esteve em Longchamp antes!
- Sim, claro que j estive. Papai adorava corridas e, quando ia com mame
a Longchamp, sabia que eu iria chorar torrentes de lgrimas se tivesse de
ficar em casa.
Mesmo no querendo admitir, o duque reconheceu que nunca vira uma mulher
com tanta graciosidade e elegncia como Areta.
Ela chamava a ateno no s pelas roupas no rigor da moda, mas tambm
pelo penteado, a cor dos cabelos, a pele alva de cetim e as jias
extraordinrias que usava.
Mas nela no havia exageros. O gosto da esposa era refinado demais para
ela imitar La Paiva que brilhava como uma rvore de Natal.
Num dos brincos de Areta havia uma grande prola negra e no outro uma
prola levemente rosada. O colar de duas voltas, formado de prolas raras
era, inegavelmente, muito valioso. O broche reunia prolas negras e
rosadas.
O duque teve certeza de que quando chegassem  tribuna, as mulheres se
encantariam com aquelas jias da esposa, mas os homens iriam admirar-lhe
os olhos faiscantes e seus lbios risonhos, levemente coloridos.
Pela primeira vez ocorreu ao duque que, no passado, aquele evento faria
com que trouxesse ao seu lado uma mulher elegante e sofisticada. No
entanto, estava com Areta, ao redor de quem havia uma aura de juventude e
inocncia que jamais havia encontrado em mulher alguma antes.
com sua longa experincia, o duque j previa que os franceses, em geral
grandes conhecedores de mulheres, sem dvida iriam achar Areta
irresistvel.
No se enganou.
Assim que se dirigiram para a tribuna, Areta foi cercada de admiradores.
Uma coisa que os franceses adoravam era a novidade e sendo todos esnobes,
apreciavam a companhia de uma duquesa.
Quando se tratava de uma duquesa jovem, linda e espirituosa, a ento,
eram atrados para ela como se por um im.
Cavalheiros que o duque mal conhecia e que s encontrava em pistas de
corrida, vieram cumpriment-lo. Deram-lhe as boasvindas a Longchamp e
ficaram esperando ser apresentados a Areta.
O marqus e o visconde j se achavam ao lado da duquesa. Se o duque no
conhecia todos os cavalheiros presentes, o marqus conhecia.
O duque acabou vendo-se atrs de um cortejo de cavalheiros
elegantssimos, seguindo a esposa.
Eles foram ao paddock e Areta deu umas palmadinhas nos cavalos, alm de
conversar com os jqueis.  claro que tudo o que ela fazia era observado
por uma multido de curiosos.
Diante disso, o marqus comentou com uma nota divertida
na voz:
- Mercury ter mesmo de se resignar a um segundo lugar, ainda que seja,
bem como L Vainqueur, o favorito. O primeiro lugar j  de Areta!
- Ser uma honra! - foi a resposta do duque. Notando-lhe o riso meio
irnico, o marqus ficou sem saber
105
se ele se referia  esposa ou a Mercury.
Durante o almoo no Jockey Club o duque no teve oportunidade de
conversar com a esposa.
S quando a corrida para o Grand Prix ia comear, ele notou que ela ficou
perto dele.
- Acha que Mercury vencer? - perguntou suavemente ao marido.
- Tenho muita esperana e se isso acontecer, ser a maior glria,
conforme voc j disse.
- Estou rezando para ele vencer. Pelo menos ter esta compensao.
Sabendo que ela se referia  prpria pessoa, ele disse:
- Fico muito feliz em ver como est se divertindo. J devia ter-lhe dito
que, sem dvida,  a mulher mais elegante daqui!
Mesmo no a estando olhando de frente, o duque percebeu que ela virou-se
para fit-lo.
- Obrigada.  muita amabilidade sua dizer isso. Espero que depois de ier
notado que Fabian e Pierre me amam sinceramente, voc no me julgue to
m como estava pensando.
Sem saber que resposta daria, o duque fez uma breve anlise do que
sentira. No a achara m apenas, e sim abominvel por ter-lhe arrumado
aquela armadilha.
Os cavalos partiram e o duque levou o binculo aos olhos, enquanto Areta
fazia uma breve orao para Mercury vencer.
Foi certamente uma corrida cheia de emoo. Mesmo o mais frio e
indiferente espectador ficou tenso quando viu os dois cavalos favoritos
correndo lado a lado, emparelhados.
Mercury era negro e L Vainqueur era cinzento. Vendo-os, Areta susteve a
respirao. Desejava de todo corao que Mercury fosse o vencedor.
Fez-se um silncio pesado quando, na reta final, bem longe dos outros
cavalos, os dois favoritos cada vez mais se aproximavam do disco de
chegada.
Ultrapassado o disco, foi impossvel afirmar qual dos dois havia vencido.
Os demais cavalos passaram estrondeando e pouco depois algum na tribuna
gritou:
- Foi empate!
Areta olhou para o duque.
- Foi mesmo?
- No ficaria nada surpreso.
Ele falou calmamente e parecia perfeitamente controlado, mas ela notou um
pequeno nervo repuxando em seu pescoo. Sem dvida, como todo mundo, ele
havia vibrado com a corrida.
Ento, quando o empate foi apontado, ouviu-se um barulho ensurdecedor da
multido.
Scios do Jockey Club cercaram o duque para felicit-lo, numa atitude
esportiva, reconhecendo que a corrida havia sido sensacional e, de certa
forma, um grande triunfo para a Inglaterra.
Depois dessa corrida emocionante, as outras pareceram " imspidas" e o
duque decidiu no esperar pela ltima delas. com dificuldade, conseguiu
tirar Areta do meio de seus inmeros admiradores.
Eles se afastaram depois de prometerem ao marqus que estariam em sua casa
s oito horas.
- Foi sensacional... sensacional mesmo! - Areta exclamou durante a viagem
de volta. - Minhas preces no foram atendidas plenamente, mas fiz o que
pude.
-  claro que lhe agradeo muito. Talvez Mercury tivesse perdido sem a
ajuda de suas preces.
- O jquei que montou Mercury deve estar radiante. Na Inglaterra os seus
amigos estaro bebendo a sua sade.
Ao dizer isso Areta lembrou-se de que o duque ainda no havia decidido o
que fazer em relao ao casamento de ambos.
Ela olhou-o de relance e como se ele estivesse lendo seus pensamentos,
disse:
- No h pressa de tomarmos uma deciso sobre o nosso casamento para no
nos arrependermos mais tarde. No haver problema se adiarmos nossa
deciso at amanh. Esta noite tenho certeza de que vai querer divertir-
se com seus amigos.
- Esperava que fosse dizer isso - Areta respondeu-lhe com um sorriso. - 
maravilhoso estar em Paris novamente.  como voltar para o cu depois de
ter experimentado um inferno escuro.
- Era to m assim sua vida no castelo?
- Pior... muito pior - ela disse num murmrio. - Toda
107
noite meu maior desejo era morrer para ficar com papai e mame. O duque
franziu a testa.
-  difcil acreditar que Shiltonhurst possa ser to rancoroso!
- Em seu orgulho exagerado pelos antepassados, considerou a fuga de papai
com uma mulher casada um ultraje sem perdo. Suponho que o que pesou mais
foi o fato de lorde Larigley ser um homem to importante.
- Seus pais certamente se adaptaram muito bem em Paris e souberam fazer
do lar de vocs um lugar especial.
- Meus pais viviam felizes. Percebendo que o marido sentia saudade da
Inglaterra, mame forava-o a usar seu crebro e no permitia que ele
estagnasse no campo.
- Voc pensa como sua me?
- Na minha opinio todos os homens precisam de um desafio. Se a vida for
sempre fcil demais... sem acontecimentos, rotineira... vem o tdio.
Apesar de reconhecer que isso era uma verdade, o duque achava que no se
aplicava a ele. Depois de uma pausa, perguntou:
- E neste momento voc estaria me apresentando um desafio?
- Espero que pense assim. Como  to inteligente, sintome confiante na
sua capacidade de encontrar uma soluo.
O duque achou que havia muito sentido oculto atrs daquelas palavras.
A carruagem se aproximava da casa da rue du Faubourg St. Honor quando o
duque falou:
- Talvez a tranquilize saber que estou tentando. - Ele olhou para a
esposa e notou uma expresso muito comovente em seu rosto. - Bem,
acredito que voc queira descansar antes do jantar. vou at meu clube e
voltarei para trocar-me.
- Imagino que vai encontrar uma pequena multido de amigos ansiosos para
cumpriment-lo pelo sucesso.
Descendo da carruagem ela entrou na casa. Antes de subir foi ao salo dar
uma olhada nos jornais. Poderia pedir para sua criada particular lev-los
para o quarto onde os iria ler, mas o sol brilhava tanto e ela sentia-se
to feliz que no tinha vontade de repousar.
Tirando o elegante chapu, atirou-o no sof, depois foi at a janela onde
ficou admirando o jardim ao fundo da casa. Ali havia um chafariz que
arremessava a gua em direo ao cu.  medida que os jatos de gua se
transformavam em gotculas nas quais incidiam os raios de sol, pequenos
arco-ris danavam no ar.
Areta viu-se fazendo uma pequena orao.
"Oh, meu Deus... por favor... ajude o duque a encontrar uma soluo."
Erguendo a cabea e olhando para o cu, ficou algum tempo em meditao.
O rudo da porta se abrindo tirou-a de seu recolhimento.
- O conde de Soisson, madame! - um dos criados anunciou.
Virando-se, viu o conde caminhando em sua direo. Ele havia seguido a
carruagem na qual o duque e ela se achavam.
Decididamente no gostava daquele homem que se mostrara familiar demais
na noite anterior. Em Longchamp o evitara e no dera ateno aos seus
elogios. Mas ele no desistira e lhe fizera declaraes de amor que ela
julgara um insulto.
Agora surgia em sua casa. Tomando-lhe a mo, levou-a aos lbios, ao que
Areta replicou, num tom cortante:
- Eu j ia subir para descansar um pouco. No tenho o menor desejo de me
ver abatida no jantar desta noite. Vai compreender, monsieur, que no
poderei lhe dar ateno.
- Ora, no pode ser assim indelicada, lindssima duquesa
- o conde protestou. - Estive contando as horas e os minutos para poder
v-la de novo. Quando vocs deixaram o hipdromo, segui-os e vi o duque
deix-la aqui e se afastar. Ento percebi que no podia perder esta
chance.
Ele continuava segurando a mo de Areta que, com dificuldade, conseguiu
retir-la da do importuno aristocrata.
- Sinto muito, monsieur, mas estou realmente exausta depois de toda esta
agitao e desejo ir para a cama.
-  onde eu gostaria de estar com voc.
Ambos falavam em francs e a frase no soou to crua como se tivesse sido
dita em ingls. Mas Areta ficou imediatamente muito ereta e replicou
severamente:
109
- No deve falar dessa maneira comigo! No ignora que estou em lua-de-
mel!
- Uma estranha lua-de-mel, uma vez que vai jantar com o marqus e
encontra seu marido com La Paiva!
Areta susteve a respirao.
Aquele homem falava de modo desagradvel. Ela teve o pressentimento de
que ele no hesitaria em fazer um escndalo que iria deixar o duque ainda
mais aborrecido do que j estava.
Ento deu uma breve risada.
- Eu poderia explicar exatamente o que aconteceu, mas no tenho o menor
motivo para faz-lo!
- No tem mesmo - o conde concordou. - E eu ficaria muito mais feliz se
falssemos sobre ns mesmos.
Achando que seria um erro hostiliz-lo, a duquesa indicoulhe uma
poltrona.
- Concedo-lhe exatamente cinco minutos, monsieur, depois dos quais deve
ser compreensivo e deixar-me repousar. Ns mulheres no temos a
resistncia dos homens.
- Descanse em meus braos.
Imediatamente o conde puxou Areta para junto de si. Dando um grito ela
colocou as mos contra o peito dele, forando-o a se afastar.
- No! No! - continuou gritando.
- Voc  fascinante, sedutora e completamente irresistvel!
- Solte-me! - Areta gritou, furiosa. - No tem o direito de me tocar!
- Como posso evit-lo, se voc  to linda? S a deixarei depois de lhe
beijar os lbios.
- No! No!
Sem a menor delicadeza, o conde puxou-a ainda para mais perto dele.
Torcendo-se e se debatendo, ela tentou soltar-se daqueles verdadeiros
tentculos, para evitar que aquele homem detestvel cumprisse a ameaa.
Sentiu ento os lbios dele tocando-lhe o rosto.
No conseguindo libertar-se dos braos fortes que a enlaavam,
comprimindo-a, Areta deu um grito bem alto e agudo.
Nesse instante a porta se abriu e o duque entrou no salo.
Por um momento nem o conde nem Areta se deram conta da presena dele.
Quando ela sentiu os lbios do conde tocando-lhe o pescoo, gritou mais
alto ainda.
O duque avanou em direo aos dois.
- com os diabos! O que est fazendo? - perguntou, furioso.
Agarrando o conde pelas costas deu-lhe um violento puxo, separou-o de
Areta e atingiu-o com forte murro no queixo, deixando-o estatelado no
cho.
Incapaz de falar, o conde deixou-se ficar cado, olhando apenas para o
duque que lhe pareceu ainda mais alto, ali, de p, acima de seu corpo
estendido.
- Saia desta casa e deixe minha esposa em paz! - o duque vociferou. - Se
eu voltar a encontr-lo aqui novamente, meus criados se encarregaro de
atir-lo na rua!
O conde afinal recobrou a voz.
- Fui insultado e exijo uma reparao!
- Certamente! vou ensinar-lhe uma lio da qual jamais se esquecer!
Lentamente o conde levantou-se.
- Encontro-o no lugar de costume, amanh, ao nascer do sol - declarou. -
Depois de me vingar dos seus insultos, ficarei consolando sua esposa!
Ele deixou o salo e o duque cerrou os punhos, mas no o seguiu. Esperou
que a porta se fechasse e dirigiu-se para Areta que se mantinha de p,
porm no poderia estar mais plida ou mais trmula.
- Por que encorajou um sunocomo esse? - o duque interpelou-a, sem
esconder sua raiva.
- Como voc ousa pensar que... o encorajei? Ele nos seguiu e viu quando
voc se afastou na carruagem.
- Voltei para c apenas para pegar uns papis que havia esquecido sobre a
escrivaninha. E isto foi a melhor coisa que eu fiz!
Enquanto falava, ainda rudemente, Areta notou que seu olhar era muito
desconfiado.
- Asseguro-lhe que... no o encorajei. Eu ia subir para descansar.
111
O duque deu um passo, aproximando-se mais da esposa.
- Voc encorajou-o e encorajou tambm todos os outros homens pelo modo
como se comportou! Se est querendo beijos, por que no receb-los do
homem com quem se casou?
Nem bem acabou de falar, enlaou-a em seus braos e puxou-a
indelicadamente para junto do seu peito. Antes que a esposa se desse
conta do que estava acontecendo, sufocou-a com um beijo impetuoso e
possessivo.
Havia dureza nos lbios do duque, alm de um certo furor. Areta mal podia
raciocinar, to inacreditvel lhe pareceu aquela reao inesperada e
inslita.
Ento, quando tomava conscincia de que a presso de seus lbios a
magoavam, o duque teve certeza de que jamais tocara lbios to suaves e
inocentes e de repente, passou a beij-los com delicadeza.
Estreitando ainda mais a esposa em seus braos, o duque continuou a
beij-la, agora com mais suavidade, porm longa e imperiosamente.
Estando to junto do marido, Areta no podia deixar de sentir as
vibraes que vinham de seu corpo viril e algo estranho pareceu explodir
dentro dela.
Era como uma onda, como labaredas percorrendo-lhe o corpo, vindo at o
peito e chegando-lhe aos lbios, provocando nela uma sensao
maravilhosa.
Era algo to extraordinrio, que a deixou paralisada, presa queles
braos, queles lbios, ambos envoltos pela luz do sol.
Subitamente, do mesmo modo impetuoso como a abraara, o duque soltou-a,
quase a deixando cair.
- Ora, que v para o inferno! - ele esbravejou. - Foi tudo culpa sua!
Dirigindo-se para a porta, puxou-a e saiu, batendo-a com fora atrs de
si.
Areta permaneceu de p, agarrada a uma poltrona para no cair, seu olhar
fixo na porta agora fechada.
No podia acreditar que ele a beijara daquela forma, deixara-a
experimentar um xtase jamais experimentado antes e, ainda furioso, a
abandonara daquela forma.
Ao tentar imaginar que tipo de emoes o marido poderia
ter sentido, lembrou-se de que ele se bateria em duelo ao amanhecer.
Ele poderia ser ferido e tudo seria culpa dela.
"Oh, meu Deus... isto no pode acontecer! "
113

CAPTULO VII

Depois de ficar ainda durante um longo tempo no salo, Areta decidiu o
que fazer.
Escreveu um bilhete para o marqus e pediu que um dos criados o
entregasse imediatamente.
No bilhete mandava dizer que precisava v-lo a ss antes dos outros
convidados chegarem para o jantar. Mencionava que era assunto importante
e que esperava estar na casa dele s sete e trinta.
No ignorando que o marqus tivera muito trabalho em organizar aquele
jantar para o qual teria convidado muitos dos seus grandes amigos, Areta
s esperava que no ltimo instante o duque no desistisse desse
compromisso.
Escolheu para esse jantar especial um dos seus vestidos mais lindos e
mandou Marie ir ver o que se passava nos aposentos de Sua Alteza.
A criada voltou dizendo que Sua Alteza estava tomando banho, preparando-
se para o jantar.
Era o que Areta esperava e escreveu-lhe um bilhete, dizendo:
"Fui  sua frente  casa do marqus porque precisava v-lo antes de seus
hspedes chegarem. Por favor, no deixe de comparecer. Imagino o quanto
ele se empenhou para nos oferecer este jantar".
Assinando simplesmente "Areta", pediu a Marie que levasse o papel para o
valete do marido.
s sete e vinte Areta saiu da casa e viu a carruagem que os levaria 
casa do marqus, nos Champs-Elyses. Tomou o veculo e comunicou a um dos
criados que a carruagem logo voltaria para levar Sua Alteza.
Fabian j a esperava, muito elegante, usando traje de noite. Recebendo-a
com um beijo, levou-a para uma sala de estar e
114
no para o salo onde receberia seus convidados.
- Ora, o que a preocupa, Areta? - ele perguntou, solcito. Ao ouvir o que
acontecera, ele franziu as sobrancelhas.
- Isto  catastrfico.
- Acha mesmo que Cosmo ter de... duelar?
-  evidente. S desejaria que ele tivesse de enfrentar qualquer outro
homem em Paris.
- Por qu?
O marqus ficou algum tempo considerando se devia ou no contar a
verdade.
- O que h de errado? - Areta perguntou, amedrontada.
- O conde  uma pessoa desagradvel e eu no diria que ele tenha um
carter a toda prova. Sua fabulosa riqueza o faz acreditar que toda
mulher seja uma presa fcil e chega a se convencer de que elas se
apaixonam por ele.
- Pois eu o considero... repulsivo! - Areta exclamou indignada.
- Concordo com voc. Tambm h histrias desagradveis sobre duelos
envolvendo-o.
Areta fitou-o com uma indagao no olhar.
- Ele , invariavelmente, o vencedor - o marqus explicou. - Dizem que 
desonesto e atira antes de terminada a contagem at dez.
- Ento...  assim que ele vence! - Areta murmurou quase sem voz.
- Exatamente! No ltimo duelo a vtima recebeu o tiro nas costas!
Areta deu um grito de horror.
- Mas... nesse caso algum presente o acusou, no?
- O conde goza de muita influncia - Fabian respondeu, sacudindo a
cabea. - Alm disso  extremamente vingativo.
Depois de ter respirado fundo e considerado a situao, ela decidiu-se.
- Assistirei a esse duelo!
- Impossvel!
- Por favor, tio Fabian, leve-me com voc! - ela implorou. - Se no me
levar, terei de ir sozinha.
Quem falava daquela forma no era a elegante, educada, sofissticada
115
e espirituosa duquesa de Kerncliffe, e sim a garota que o
marqus amava e sempre desejou proteger.
Por um momento ele mostrou-se indeciso; finalmente, cedeu quela splica.
- Muito bem. Mas ningum deve, absolutamente, ficar sabendo disto.
Areta atirou os braos ao redor de seu pescoo.
- Eu sabia que podia contar com voc. Conheo o lugar onde os duelos
acontecem. Papai mostrou-me esse lugar e sei que h por ali alguns
arbustos entre os quais nos esconderemos.
O marqus beijou-lhe o rosto.
- Vai ter de ficar muito quieta e usar da mxima discrio. Minha
carruagem estar esperando  porta de sua casa s quatro e meia. No
acredito que o duque saia to cedo.
Areta beijou Fabian e ambos se dirigiram para o salo onde alguns
convidados j se achavam  espera.
O duque foi um dos ltimos a chegar.
No querendo desapontar o anfitrio, Areta fez um esforo para mostrar-se
divertida e espirituosa. Mas seu marido manteve-se quase o tempo todo
calado. Todavia, ningum pareceu notar o silncio do duque.
Na carruagem, de volta para casa, Areta estranhou o comportamento do
marido. No que estivesse zangado. Ele estava diferente, srio e
introspectivo.
Era como se j pressentisse que aquele duelo seria ainda mais perigoso do
que qualquer outro.
J na rue du Faubourg St. Honor, pouco antes de chegarem  frente de
casa, Areta recomendou ao marido:
- Por favor, tenha cuidado, e... no corra riscos desnecessrios.
- J duelei vrias vezes. Acho que esse francs atrevido merece uma
lio!
- Estarei rezando... por voc - ela murmurou com voz suave.
A carruagem parou por completo e o duque no respondeu. J dentro de
casa, Areta subiu para seu quarto sem dizer boa noite ao marido. Assim
que Marie, depois de ajud-la a trocar-se, deixou-a a
1 IA
ss, Areta foi at o quarto de vestir e tirou de um dos armrios mantidos
trancados a chave, uma caixa grande onde havia guardado algumas das suas
jias.
Ao fundo dessa caixa havia uma pequena pistola que o pai dera de presente
para a esposa quando a ensinara a atirar.
- Se eu precisar deix-la sozinha no campo por estar cuidando de algum
negcio ou comprando cavalos, quero que saiba se defender - lorde John
havia justificado as lies de tiro ao alvo e a arma.
Apesar de achar desnecessrios os cuidados do marido, Sylvia aprendera a
atirar. Nessa ocasio Areta contava apenas onze anos e tambm recebera
lies do sempre bem-humorado pai.
A pistola que Areta tinha nas mos era uma verdadeira jia. Era pequena e
no cabo havia incrustados brilhantes e turquesas.
Lorde John dissera  esposa, que se encantara com a pequena arma:
- Uma pessoa linda como voc, minha querida, s merece tocar coisas
lindas tambm, ainda que seja uma arma mortal.
A esposa o beijara antes de dizer:
-  to linda que tenho vontade de us-la no cinto, como uma pirata.
- Uma pirata que roubou meu corao e de quem sou prisioneiro, como bem
sabe, por toda a eternidade.
Areta, que presenciava essa cena, achando que "estava sobrando", havia
deixado os pais abraados e fora para o jardim treinar com a nova arma.
Constatara que era leve, precisa e fcil de manejar. Gastou algumas balas
acertando sempre na mosca do alvo que o pai havia-feito.
Agora, com cuidado, Areta colocou a pistola na bolsinha que fazia
conjunto com o vestido escuro que pretendia usar pela manh.
s quatro e meia, sem ningum notar, Areta saiu de casa. No havia criado
algum no hall. O costume de se manter um criado da noite nem sempre era
seguido na maioria das casas importantes de Paris.
Portanto, Areta foi at a carruagem do marqus que j a esperava,
despreocupada por saber que ningum iria contar aqg
lli
duque que ela sara.
Assim que se sentou no confortvel banco, segurou a mo de Fabian.
- Tinha certeza, tio Fabian, que no deixaria de me ajudar.
- Apesar de achar que  um erro voc assistir ao duelo, sei que ningum
poder nos ver quando nos escondermos entre os arbustos.
Areta sabia que o marqus a estava avisando que era extremamente
imprprio para uma lady presenciar um duelo.
Ao chegarem ao Bois ele escondeu a carruagem, e os dois caminharam com
cuidado at o lugar conhecido como o mais conveniente para duelos.
Havia uma espessa cerca viva de rododendros separando uma rea gramada,
prpria para jogos, e o marqus levou Areta o mais prximo possvel do
lugar onde deveria ficar o juiz que instruiria os duelistas.
Ainda havia estrelas no cu, mas um leve claro do leste j prenunciava o
novo dia. Quando j estava clareando, os cavalheiros comearam a surgir.
Por entre as folhas, Areta reconheceu dois amigos do duque que seriam os
seus padrinhos.
O conde apareceu pouco depois com dois outros cavalheiros, parecendo
muito seguro de si, falando alto e se vangloriando.
Em questo de minutos o duque chegou com o juiz. Este, um cavalheiro
idoso e de ar distinto, no parecia muito feliz por ter sido forado a
deixar a cama quentinha antes do romper da aurora.
Obviamente desejoso de ver aquele duelo terminado, o juiz chamou os
duelistas, lembrou-lhes as regras de um duelo, repetindo-as quase como se
fosse um papagaio.
Os padrinhos tomaram suas posies, enquanto o duque e o conde ficaram de
costas um para o outro.
Foi nesse instante que, sem o marqus notar, Areta tirou da bolsinha a
pistola que havia trazido.
Segurando-a sob o casaco escuro, ela moveu-se um pouco para ter uma viso
melhor.
O duque pareceu-lhe to belo e o conde um homem dissoluto.
O juiz comeou a contar vagarosamente.
- Um, dois, trs, quatro, cinco, seis...
Areta no olhava para o duque, mas para o conde.
Quando o juiz disse "nove" os dois homens ainda continuavam de costas um
para o outro. Ento, ligeiro, antes que algum ouvisse a contagem "dez",
o conde virou-se e ergueu a mo direita, pronto para atirar.
Sem a menor hesitao, Areta disparou a pistola e atingiu-o no brao, no
exato momento que ele puxava o gatilho. Sua arma caiu-lhe da mo, porm a
bala j disparada pegou de raspo a cabea do duque, que ainda se achava
de costas.
Vendo o marido cambalear, Areta deu um grito de horror e, saindo do meio
dos arbustos, correu ao encontro ele.
O valete de Sua Alteza veio recolher a bandeja do breakfast.
- Quero me levantar, Hayes!
- No at esta tarde, Alteza. O mdico vir v-lo aps o almoo. Como
Vossa Alteza sabe, ele ainda est com Sua Majestade, o imperador.
- Que se dane o imperador! Sei que me sinto bem e estou enjoado de ficar
nesta cama!
-  assim que Vossa Alteza me agradece! E eu me preocupando com Vossa
Alteza dia e noite! - Hayes reclamou com a familiaridade de um criado
muito antigo.
Antes de sair, ele voltou-se para dizer, como se s ento aquilo lhe
ocorresse:
- Se no fosse por Sua Alteza, a duquesa, no estaria a reclamando!
- O que quer dizer com isso, Hayes? O valete mostrou-se aborrecido.
- Aqui estou eu novamente, abrindo esta boca enorme e metendo os ps
pelas mos!
- Quero a verdade! - o duque exigiu.
- Bem, o marqus disse apenas que ningum podia saber o que tinha
acontecido, por causa de Sua Alteza, a duquesa. Mas eu examinei a arma de
Vossa Alteza e vi que nenhum tiro havia sido disparado. Achei muito
estranho.
- Est dizendo que a duquesa estava presente ao duelo?
-  verdade, mas todos em Paris acreditam que tenha sido
119
Vossa Alteza o responsvel pelo conde ter perdido o brao.
- O conde perdeu o brao? - o duque perguntou ao valete, evidentemente
perplexo.
- Foi amputado ontem pela manh, Alteza. - Havia brilho nos olhos de
Hayes. - Pode ter certeza de que ele no vai mais desafiar ningum para
um duelo.
Novamente ele fez meno de sair.
- Espere! - o duque ordenou. - Sua Alteza j est acordada?
- Est tomando banho.
- Ento diga  criada particular de Sua Alteza que desejo ver minha
esposa to logo ela possa vir aos meus aposentos.
Hayes mostrou-se hesitante.
- No v aborrecer Sua Alteza - ele recomendou, como se fosse uma velha
nanny repreendendo uma criana. - Ela tem permanecido sentada  beira de
sua cama dia e noite. Deve estar muito cansada.
- V e faa o que lhe mandei.
O duque pegou o jornal que estava na beirada da cama.
Depois de ter tido febre durante trs dias, era natural que estivesse
plido.
Mas, apesar da palidez, agora, depois de ter tomado um banho e feito a
barba, voltara  aparncia habitual e estava muito bonito.
Ele no teve de esperar muito para ver a porta de comunicao entre seu
quarto e o de Areta abrir-se e v-la entrar depressa e ansiosa naquele
aposento, usando apenas um finssimo conjunto de camisola e nglig de
chiffon azul-celeste.
Areta foi diretamente para perto da cama do marido com visvel
preocupao no olhar.
- Hayes disse que voc desejava me ver imediatamente. Est sentindo
dores?
- No, sinto-me surpreendentemente bem.
- Nesse caso... o que deseja?
- S lhe dizer que estou bem.
Como se precisasse confirmar por si prpria, ela tocou o curativo que
agora era apenas um chumao pequeno de tecido de linho grudado do lado
esquerdo da cabea.
Passou-lhe pela mente que ele jamais iria saber como ela e o mdico
haviam ficado aterrorizados, receando que a bala pudesse ter causado
danos cerebrais.
Felizmente, por milagre, o ferimento no havia sido to profundo.
Durante quarenta e oito horas ele havia delirado devido  febre muito
alta e no ficara sabendo o resultado do duelo.
- Tem mesmo certeza de que se sente bem?
- Se voc e Hayes no pararem com esse excesso de cuidados, mimos e
recomendaes, acabarei me tornando um hipocondraco!
Areta sorriu.
-  improvvel, mas seu estado deixou-nos preocupados.
- Sente-se a na cama. Desejo v-la melhor. Quero que responda s minhas
perguntas.
Apesar de se mostrar surpresa, ela sentou-se. Naquela posio, o sol que
entrava pela janela tornava mais brilhantes os reflexos meio ruivos de
seus cabelos.
Seu rosto ao natural, a pele de seda e os lbios rosados evidenciavam a
sua juventude.
- Quero saber - o duque comeou num tom bem casual
- como conseguiu atirar to bem!
Os olhos de Areta tornaram-se imensos. Ela enrubesceu.
- Como ficou... sabendo?
- Hayes me contou,  claro que foi sem querer. Mas naturalmente, eu
acabaria descobrindo. Ainda esta manh me lembrei de que no havia
disparado minha arma.
- Quando o conde atirou, voc ainda estava de costas para ele - Areta
murmurou.
- Eu lhe disse que ele era um suno. Mas j fiquei a par do que lhe
aconteceu. Graas a voc ele foi punido.
A esposa ergueu a mo, indicando cautela.
- Nunca poderemos fazer nenhum comentrio sobre isso. Seria um escndalo
se ficassem sabendo de tudo o que aconteceu. Fabian fez os padrinhos
prometerem silncio e o juiz assumiu toda a responsabilidade.
Fazendo uma pausa, Areta respirou profundamente. Depois concluiu:
120
- Para toda Paris voc foi o... vitorioso. E, como o conde era visto como
uma ameaa, o duque de Kerncliffe... tornouse um heri.
- No quero saber de nada disso. Foi muita coragem de sua parte, Areta,
e,  claro, sinto-me imensamente grato a voc por continuar vivo.
- Ao v-lo cado, fiquei apavorada e... me recriminei por no ter atirado
um segundo antes.
- Nem pense nisso. Esse episdio deve ser esquecido.
-  o que desejo fazer - ela assegurou-lhe. - E agora, prepare-se. A casa
est cheia de flores mandadas por quase todos os cavalheiros de Paris que
tm uma bela esposa! Eu nem ficaria surpresa se lhe concedessem a Legion
d'Honneur!
Percebendo que a esposa o provocava, o duque riu.
- vou terminar de me vestir. Vim apressada assim que recebi seu recado,
ansiosa para saber o que voc queria.
- E ainda no faz o que eu quero.
- Mas... o que ?
- Quero que me beije.
Areta fixou nele os grandes olhos azuis, na mais absoluta perplexidade.
- Quero provar-lhe uma coisa - ele explicou.
A primeira reao de Areta foi uma sbita timidez; pestanejou antes de se
inclinar para beijar-lhe o rosto, achando que tinha de obedecer.
Mas os lbios do marido encontraram os dela e ele a envolveu em seus
braos. Puxou-a para mais perto de seu corpo e por um instante apenas a
embalou como se ela fosse uma criana.
Ento comeou a beij-la doce e suavemente, de um modo muito diverso de
como a beijara dias atrs.
Por um momento ela s pde sentir uma grande surpresa.
Depois, uma vez mais, como acontecera quando o duque a beijara no salo,
sentiu um calor no peito, como se pequenas chamas ali ardessem sem se
consumirem.
Os beijos continuaram, agora mais veemente, e foi como se, transportada
ao cu, se visse entre os astros e fizesse parte do sol.
Sentindo o corpo dela estremecendo junto do seu, o duque ergueu a cabea
e pediu muito suavemente:
- Quero-a mais unida a mim do que est neste momento. Ela teria escondido
o rosto no ombro do duque, no tivesse
ele segurado-lhe o queixo, fazendo-a fit-lo. Por sua vez, olhando para
ela, perguntou:
- Sou ou no sou seu marido?
- ... sim - Areta murmurou.
- E voc prometeu ou no me obedecer?
De olhos baixos, os longos clios escuros repousados nas mas do rosto,
ela respondeu numa voz quase inaudvel:
- Sim...
- Ento faa o que lhe pedi, mas antes tranque a porta. Sem olhar para o
marido, ela ergueu-se, foi at a porta
trancou-a e voltou para a cama.
Por um instante, hesitou. Ento, timidamente, tirou o nglig e entrou
sob as cobertas, ao lado do duque.
Este a puxou para mais junto do seu corpo e exclamou, numa voz profunda e
curiosamente trmula:
- Esperei muito por este momento!
No lhe dando tempo para responder, voltou a beij-la impetuosamente.
Beijou-lhe os lbios, o pescoo, os seios, at que a esposa se visse mais
uma vez levada s alturas.
Centelhas percorriam-lhe o corpo, era-lhe impossvel pensar; s conseguia
sentir.
Bem mais tarde Areta aconchegou-se ao ombro do marido e perguntou:
- No foi... demais para voc?
- No, querida, minha doura. Eu  que lhe devo perguntar isso! - Ele
sorriu. - Como  possvel a voc estar sempre adivinhando o que eu quero?
Mas, diga-me, fiz voc feliz?
- Fez feliz, muito... feliz. Sinto uma felicidade to imensa que chego a
imaginar que morri e no me encontro mais na terra e sim... no paraso. 
tudo to maravilhoso e perfeito!
- Vai continuar a se sentir no paraso, mas no em Paris. Areta olhou o
marido indagativamente.
- Se eu ficar terei de me bater em duelo pelo menos com uma dzia de
homens. A propsito, o que aconteceu com todos eles?
Todos os amigos mandaram flores, vieram visitar-nos. Tambm recebemos
uma pilha de convites. S recebi em casa Fabian e Pierre. Os outros foram
informados sobre seu estado de sade. Eu s queria ficar... cuidando de
voc.
-  isto que vai continuar fazendo.
- Mas no vamos voltar... para a Inglaterra, no? - a voz de Areta saiu
muito baixa.
Percebendo pelo estremecimento dela o que lhe passara pela cabea, o duque
estreitou-a em seus braos. No ignorava o que esperava por ela na
Inglaterra.
- No voltaremos por enquanto. Estamos em lua-de-mel e iremos para
Cannes, onde tenho uma villa que no vejo h muito tempo. Ali  um timo
lugar para convalescer.
-  uma otima ideia - Areta concordou, ansiosa.
- Mas ainda acredito que o melhor meio de convalescer ser fazer amor e
ficar sozinho com voc.
-  o que mais quero - ela respondeu, ficando ainda mais junto do marido.
Respirando fundo, perguntou:
- Voc... me perdoou, mesmo?
- Quando a beijei pela primeira vez, j a havia perdoado. Voc nem pode
imaginar a agonia que sofri com aquele maldito duelo pendendo sobre a
minha cabea e o medo de perd-la.
- Como pde pensar em... algo to tolo? O duque beijou-lhe a testa.
- Quando eu iria pensar que voc ficaria dia e noite cuidando de mim e
velando meu sono, em vez de ir divertir-se com seus inmeros admiradores?
- Ora, eles no existem. Quando voc me beijou... experimentei sensaes
que nem sonhava existirem. Ento descobri que havia encontrado o que
minha alma sempre buscara: O... amor!
- E nunca ir perd-lo, minha adorada. Percebi como voc estremeceu ao
pensar em voltar para a Inglaterra, por isso quero deix-la tranquila,
dizendo que encontrei a soluo para os nossos problemas.
- Achou... mesmo?  maravilhoso! Voc  muito inteligente!
- Acho que meu plano vai funcionar.
Areta deu um suspiro demonstrando seu alvio e o marido passou o brao ao
redor dos ombros dela. Sentia-se feliz como nunca.
- Em primeiro lugar voc ter de escrever a Millicent e Winterton,
pedindo-lhes que fiquem onde esto no momento. Tenho certeza de que no
se importaro de ficar mais tempo em lua-de-mel.
- Claro que no.
- Escrever tambm um bilhete para seu tio dizendo que, tendo Millicent
se casado, sentiu-se muito s e triste, por essa razo fugiu para Paris,
onde se encontra no momento, na casa de amigos de seus pais. Mencione que
ir avis-lo de sua volta, assim que se decidir quando isso acontecer.
-  uma atitude muito prudente. Titio pode ter... comunicado minha fuga 
polcia e esta talvez j esteja  minha procura.
- Foi o que me ocorreu. Feito isso, iremos desfrutar de uma longa e muito
feliz lua-de-mel.
- Mas... e quando tivermos de voltar?
Ao fazer a pergunta, Areta pensava que teria de enfrentar a fria do tio,
uma vez que fora a responsvel pelo plano que tirara o duque de sua filha
e o deixara sem um genro to ilustre como Kerncliffe; isto sem contar seu
papel tolo.
Mas o problema no seria s o tio. O fato repercutira em toda a
sociedade.
- Sei o que est pensando - o marido disse ao v-la to quieta. - Se
fizermos o que tenho em mente, no haver escndalo.
- No? Do que se trata?
No s pelo tom de voz da esposa, como por ser capaz de ler-lhe os
pensamentos, o duque teve certeza de que a preocupao de Areta era
sobretudo com ele. Isto o deixou comovido.
- Direi a seu tio que depois de ter pedido a mo de Millicent, ela me
confessou que no me amava e que estava apaixonada por lorde Winterton.
Compreendi sua situao e louvei sua franqueza. Mas ela me apresentou sua
prima, e assim que nos vimos, soubemos que havamos sido feitos um para o
outro!
No tirando os olhos do marido, Areta ouvia atentamente.
124
O duque continuou:
- Nem Millicent ou voc sabiam o que fazer e ento eu, s eu apenas,
planejei levar a prima de Millicent e no ela prpria at o altar.
O modo como Areta inspirou o ar ruidosamente demonstrou o quanto estava
atnita.
- vou insistir que apenas eu fui o responsvel por tudo. Ento planejei a
fuga de lorde Winterton e Millicent e mandei aquele aviso para voc
descer imediatamente que os cavalos estavam indceis.
Subitamente ele riu.
- J estou vendo a cara de seu tio. Sem dvida ele vai julgar meu
comportamento abominvel e ficar frustrado por lady Millicent no
tornar-se uma duquesa, mas nada poder fazer. Quanto aos outros, sem
dvida acharo a nossa histria to romntica e imprevista que s mesmo
eu poderia pensar em algo assim extraordinrio.
Areta deu um pequeno grito de felicidade.
- Tem razo... s mesmo voc para pensar em algo to maravilhoso e
convincente.
- Ainda no terminei. Quando voltarmos para a Inglaterra a primeira
pessoa que iremos ver ser o prncipe de Gales. S depois da visita a Sua
Alteza iremos  casa de seu tio para contar o que aconteceu.
- O prncipe de Gales? - Areta repetiu, mostrando-se confusa.
O duque sorriu.
- Sua Alteza adora estar a par de tudo e ficar em evidncia. Mas, acima
de qualquer outra coisa, tem o maior prazer em ajudar os amigos. Pedirei
a ele, muito humildemente, que nos ajude. E voc, minha querida, ter de
fascinar o "Crculo da Marbolborough House" da mesma forma que fascinou
Paris.
- Acha que... serei capaz disso? - Areta perguntou, um pouco receosa.
- Ser capaz e far isso - o marido declarou com firmeza.
- Ento, quando todos acharem que o que fizemos foi extremamente ousado e
romntico, nada haver que o duque de Shiltonhurst possa fazer, seno
fingir que, como toda a sociedade,
tambm se sente feliz em me cumprimentar por ter uma esposa to
maravilhosa.
- A duqueza... errada! - Areta murmurou.
- Shiltonhurst ser o nico homem da Inglaterra a pensar assim. Para mim,
querida mulherzinha, voc  a duqueza certa, absolutamente perfeita e a
melhor esposa que um duque poderia almejar.
- Por favor... pense sempre assim! - Areta pediu. - Repito que voc 
muito inteligente por ter encontrado uma soluo brilhante para o nosso
caso. J  um heri em Paris e vai ser um heri na Inglaterra!
- J lhe disse que no ambiciono glrias de heri. S desejo faz-la
feliz, minha adorada. Nunca mais ser magoada por uma culpa que no foi
sua e sim de seus pais. Tambm no pisar na casa daqueles que no a
querem bem.
- Oh, querido... querido Cosmo! - ela exclamou, num grito de felicidade.
Lgrimas lhe desceram pelas faces.
-  uma ventura ouvi-lo dizer tantas coisas... maravilhosas. Estou to
feliz que no posso conter as lgrimas...
- No vou permitir que voc chore - o marido asseverou-lhe.
Deslizando um pouco na cama, ele beijou a esposa e acaricioua longamente.
Havia tanta coisa que Areta queria lhe dizer, mas foi impossvel. Toda
ela vibrava e ansiava por mais beijos e por uma unio completa.
Sabia que Cosmo sentia o mesmo.
Finalmente havia encontrado o amor; o amor que surgira quando no tinha
mais esperanas de encontr-lo; o amor s feito de felicidade e risos.
Coisas que ela havia perdido durante um longo tempo e que havia
recuperado, por isso lhe eram mais ainda preciosas.
- Amo voc... amo-o tanto, Cosmo querido - ela dizia emocionada.
Mas os lbios dele a mantinham cativa. Seus braos a enlaavam
fortemente. E foram tantos os beijos ardentes, loucos e apaixonados que a
deixaram extasiada e sem respirao.
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Ento o duque a transportou novamente a um paraso especial, entre os
astros.
Quando ambos experimentaram o xtase divino, Areta soube que eles haviam
conseguido tudo o que realmente importava na vida: o amor.
128

                            ****

QUEM  BARBARA CARTLAND?
As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de 350 milhes
de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita
importncia aos aspectos mais superficiais do sexo, o pblico se deixou
conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais.
E ficou fascinado pela maneira como constri suas tramas, em cenrios que
vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides
das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso das
reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora, que, alm de
j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e
teatrloga. Mas Barbara Cartland se interessa tanto pelos valores do
passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo
de Dama da Ordem de So Joo de Jerusalm, por sua luta em defesa de
melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e 
presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.
Fim
